16 maio 2008

CONVITE


Convido a todos que quiserem a participar de uma jornada sem precedentes. Uma viagem deslumbrante onde tudo vai acontecer.
Você terá medo, com certeza terá, mas isso o fará mais forte. Também vai querer desistir durante a jornada, há vai sim. Já vi isso acontecer inúmeras vezes. Mesmo tendo sido alertando para tais fatos - é o que tenho visto acontecer durante milênios.
Este lugar, não tem forma, não tem cheiro, não tem fim. Não vou dizer que é um lugar sagrado, ficaria extremamente piegas, não acha? Forçado, ou melhor... Sem força!
Você deve estar se perguntando, mas por que devo aceitar? Parece tão perigoso tudo isso. Bom eu avisei que você iria sentir medo. Começa assim, com estas desculpas inofensivas vindas da lógica absurda de proteção, de sobrevivência. Absurda sim! Mas você só vai descobrir o quão é absurdo isso se caminharmos juntos.
Não estou escrevendo aqui, agora, para convencer você de que é importante, ou vital, ou qualquer outra palavra usada para supervaloriza este convite, eu não me atreveria.
Você tem que sentir, sentir profundamente, ardentemente, e só assim, só desta maneira você vai conseguir encontrar a estrada para tal viagem. E por favor nada de sentimentalismo, isso só nos afasta.
Este não é um convite comum, que é feito assim sem mais nem menos, não! Ele necessita de uma certa coisa, certo acontecimento para valer. Quero dizer que para encontrar esta estrada não basta simplesmente ler estas palavras. Felizmente é necessário algo a mais e quanto a isso, eu não poderei te ajudar. Você vai ter que perceber sozinho.
Sozinho sim! [está com medo novamente?]
Não aquele sozinho que você anda acostumando, que por sinal não tem nada, absolutamente nada de solidão. Eu me refiro a uma solidão que você nunca viu e talvez nunca veja. Irônico isso, mas é a pura verdade.
Como estava dizendo, não basta você ler estas palavras distantes de seus reais significados, você terá que perceber, sem seus viciados sentidos. Desculpe-me de usar a palavra viciados sentidos, não se ofenda, é apenas um fato e que ao longo da jornada - assim como o medo e a vontade de desistir - vai fazer muito sentido para você.
Responda uma coisa, quando você leu o título deste texto, você começou a ler por curiosidade, por não ter o que fazer neste momento, o que te trouxe até aqui? Esta é uma pergunta séria e muito importante, por que dependendo da resposta vai ser difícil você achar a estrada.
Você pode tentar virar para a direita, para a esquerda, subir e até descer, mas não vai encontrar. Tenho que ser sincero neste momento, se não você vai colocar a culpa em mim, usar aquelas desculpas que lhe falei.
Pode até pensar: essa ai, nem sabe o que fala, deixe isso pra lá.
Ai, neste exato momento eu devo te lembrar outra coisa. Ou você já percebeu? Eu disse que você tentaria fugir, lembra, há algumas linhas acima.
Então, voltando à pergunta, o que te trouxe aqui? Responda! Agora!
E ai, o que você concluiu? Foi curiosidade? Se foi, vá embora agora, por favor!

• • •

Não foi? Foi outra coisa, você sentiu algo? Não sabe me explicar! Hum...
Então não explique, não perca seu tempo com tolas explicações, fique com este sentir, esta coisa nova que te tocou. Fique com isso, FIQUE!
E agora, você percebeu? Eu estou sentindo, aqui agora, nossa... É isso, você acho a estrada.
Novamente sua mente deve estar borbulhando, mas que ‘diabos’ será isso? Meu Deus!
Vamos deixar Deus e o diabo fora disso, OK? Vamos seguir só, lembra?
Então vamos! Mas espere, não se esqueça de que você deve estar completamente só.
Novamente uma ironia, eu te convido, mas não vou com você, desculpa, mas não posso ir, pois estaria quebrando a regar principal – estar incrivelmente, amavelmente, maravilhosamente SÓ!
Você quer saber se nós nos encontraremos? Você já criou laços comigo né? Deixe-me falar uma coisa: não faça isso!
Você nunca vai me encontrar e eu devo te falar porque, você merece esta resposta. Você está aqui ainda, você persistiu, obrigada!
Mas, você não vai me encontrar.
Você não pode me encontrar, arrisque uma resposta para este fato? Vamos lá! O que você me diz?
Vou te revelar. CORRA, AGORA!
Vá até o espelho mais próximo e você me verá!!!
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O quê? O que você está fazendo aqui tão rápido. Já está lendo estas palavras... Você não foi me ver no espelho. Que pena! Você ficaria surpreso ao me ver, mas você não teve coragem, não é? Já estava previsto.
Olha tenho uma última coisa para te falar neste momento: vá até um espelho e continuaremos nossa conversa.

Fim

06 maio 2008

O MEDO

Interrogante: Tive o hábito de tomar drogas, mas dele já me libertei. Porque tenho tanto medo de tudo? De manhã, desperto paralisado de terror. Mal posso erguer-me do leito; tenho medo de sair de casa e tenho medo de ficar em casa. Subitamente, quando estou a dirigir o meu carro, esse medo se apodera de mim; passo o resto do dia a suar, nervoso, apreensivo e à noite estou completamente exausto. Por vezes, embora isso muito raramente aconteça, quando em companhia de amigos íntimos ou em casa de meus pais, perco este medo; sinto-me então tranqüilo, feliz, livre de toda tensão. Quando vinha hoje para cá, senti medo de ver-vos, mas, enquanto percorria o drive e ao dirigir-me à porta, perdi repentinamente o medo e agora, sentado aqui, nesta sala aprazível e tranqüila, sinto tão feliz que nem sei do que é que estava com tanto medo. Posso sorrir e dizer sinceramente: folgo muito em ver-vos! Mas, não posso permanecer aqui para sempre e sei que, quando me for embora, de novo me envolverá a nuvem do medo. Eis o problema que estou enfrentando. Já consultei não sei quantos analistas e psiquiatras, aqui e no estrangeiro, mas o que eles fazem é só exumar memórias de minha infância; e disso estou farto, porque o medo não desapareceu absolutamente.


Krishnamurti: Deixemos de parte as memórias da infância e outras futilidades, e vamos ao presente. Aqui estais, e dizeis que já não sentis medo; por ora, vos sentis feliz e mal podeis imaginar aquele medo que estivestes sentindo. Porque não o sentis agora? Esta sala tranqüila, clara, bem proporcionada, mobiliada com gosto, e o serdes recebido amistosamente – é por isso que não tendes medo agora?


Interrogante: Em parte. Talvez seja também por causa da vossa pessoa. Já vos ouvi na Suíça, e já vos ouvi aqui, e sinto por vós uma certa e profunda amizade. Mas, não quero depender de casas bonitas, de atmosferas acolhedoras e de bons amigos, para não sentir medo. Ao visitar meus pais, tenho este mesmo sentimento confortante. Mas, em casa é terrível; todas as famílias são terríveis, com suas atividades insignificantes e isoladas, suas brigas, suas banalidades e hipocrisia. De tudo isso estou farto. Todavia, quando visito os meus e há uma certa cordialidade, sinto-me deveras, temporariamente livre deste medo. Os psiquiatras podem me explicar a razão dele. Chamam-no um “medo flutuante”. Ele é como um abismo tenebroso e sem fundo. Já gastei grandes somas de dinheiro e de tempo com análises que, em verdade, não serviram para nada. Que devo fazer?


Krishnamurti: Será que, sendo uma pessoa sensível, necessitais de um certo abrigo, uma certa segurança e, não conseguindo encontrá-la, sentis medo deste mundo brutal? Sois sensível?


Interrogante: Sim, creio que sim. Talvez não o seja na vossa maneira de entender, mas sou sensível. Não gosto do barulho da agitação, da vulgaridade desta existência moderna, da maneira como o sexo é posto em evidência, hoje em dia, em toda parte aonde vamos, e da competição para obter-se um emprego detestável e insignificante – o que não significa que eu seja incapaz de lutar pra conquistar um lugar para mim também, mas essa luta me põe doente de medo.


Krishnamurti: A maioria das pessoas sensíveis tem necessidade de um refúgio tranqüilo, de uma atmosfera cordial, amigável. Ou eles a criam para si próprios ou ficam dependendo de outros que lha podem dar – da família, da esposa, do marido, do amigo. Tendes algum amigo desses?


Interrogante: Não. Tenho medo de ter um amigo desses. Tenho medo de ficar dependendo dele.


Krishnamurti: Eis, pois, a questão: Uma pessoa é sensível, necessita de um certo abrigo, e depende de outros para obtê-lo. Sensibilidade e dependência são duas coisas que, muitas vezes, andam juntas. E depender de outra pessoa é ter medo de perdê-la. Fica-se assim, dependendo mais e mais, e o medo cresce proporcionalmente à dependência. Um círculo vicioso. Já investigaste porque dependeis? Nós dependemos do carteiro, do conforto físico, etc.; isto é bem simples. Dependemos de pessoas e coisas para nosso bem estar físico e nossa sobrevivência, isto é perfeitamente natural e normal. Temos de depender disso que se pode chamar “o lado orgânico da sociedade”. Mas, dependemos também psicologicamente e essa dependência, embora confortante, gera medo. Porque dependemos psicologicamente?


Interrogante: Estais agora a falar-me de dependência, mas eu vim para conversar-mos sobre o medo.


Krishnamurti: Examinemos ambas as coisas, porque, como veremos, elas estão relacionadas uma com a outra. Objetais a que tratemos de ambas? Estávamos falando de dependência – que é dependência? Porque dependemos psicologicamente de outra pessoa? A dependência não é a negação da liberdade? Tirem-se lhe a casa, o marido, os filhos, as posses – que é um ente humano, se tudo isso lhe é retirado? Em si próprio, ele é insuficiente, vazio, sem rumo. Assim, por causa desse vazio, de quem tem medo, ele depende de posses, pessoas e crenças. Podeis sentir-vos tão seguro das coisas de que dependeis que não possais imaginar a possibilidade de perde-las – o amor de vossos filhos, e o conforto que ele proporciona. Todavia, o medo continua existente. Portanto, deve ficar-nos bem claro que qualquer forma de dependência psicológica gera inevitavelmente medo, ainda que as coisas de que dependemos possam parecer-nos quase indestrutíveis. O medo se origina dessa insuficiência interior, dessa pobreza e vazio interiores. Assim estais vendo temos agora três questões: a sensibilidade, a dependência e o medo? Três coisas relacionadas entre si. Consideremos a sensibilidade: Quanto mais sensível é a pessoa (a menos que saiba ser sensível sem dependência, saiba ser vulnerável, sem angústia), tanto mais depende. Agora, a dependência: Quanto mais a pessoa depende, tanto maior o seu desprazer e a necessidade de libertar-se. /essa necessidade de liberdade dá mais força ao medo, porque é uma reação, e não libertação da dependência.


Interrogante: E vós – dependeis de alguma coisa?


Krishnamurti: Decerto, fisicamente dependo de alimentação, roupas e morada, mas, psicologicamente, interiormente, não dependo de coisa alguma – nem deuses, nem da moralidade social, nem de crenças, nem de pessoas. Mas, não é relevante saber se eu sou ou não sou dependente. Portanto continuemos. O medo é o percebi mento de nosso vazio, de nossa solidão e pobreza interiores, e de não haver possibilidade de fazermos alguma coisa a respeito. O que nos interessa aqui é só esse medo que gera dependência e, por sua vez, é aumentado pela dependência. Se compreendermos o medo, compreenderemos também a dependência. Portanto, para compreendermos o medo, é indispensável sensibilidade, para descobrirmos, percebermos como ele se origina. Se o indivíduo é suficientemente sensível, torna-se cônscio de sua medonha vacuidade – desse abismo sem fundo que não se pode encher com o vulgar entretenimento das drogas, nem com o entretenimento das igrejas ou das diversões sociais; nada o preencherá. Sabendo-se disso, cresce o medo. Este nos impele à dependência, e esta dependência torna-nos cada vez mais insensíveis. E, vendo que assim é realmente, sentimos medo. A questão, pois, agora, é a de ultrapassarmos esse vazio, essa solidão, e não de apreendermos a depender de nós mesmos, ou de disfarçarmos permanentemente o nosso vazio.


Interrogante: Porque dizeis que a questão não é dependermos de nós mesmos?


Krishnamurti: Porque dependendo de vós mesmo, perdeis a sensibilidade; vos tornais endurecido, indiferente e “fechado”. Viver sem dependência, ultrapassar a dependência, não significa tornar-se dependente de si próprio. Pode a mente enfrentar aquele vazio e com ele viver, sem fugir em direção alguma?


Interrogante: Eu enlouqueceria, só de pensar em viver com ele para sempre.


Krishnamurti: Todo movimento para nos afastarmos desse vazio é uma fuga. E essa fuga de uma coisa, essa fuga de “o que é” é medo. O medo é fuga a alguma coisa. “O que é” não é medo, a fuga ao que é que é medo, e esta fuga é que poderá enlouquecer-vos, e não o próprio vazio. Que é, pois esse vazio e essa solidão? Como surge ele? Ele surge, decerto, por causa da medição e comparação. Comparo-me com o santo, o Mestre, o grande músico, o erudito, o homem que se “realizou”. Nessa comparação, vejo-me incompleto, insuficiente; não tenho talento, sou inferior, não me “realizei”; eu não sou, e aquele homem é. Assim em conseqüência do medir e comparar, vem-nos o horrível sentimento de vacuidade, de sermos “nada”. E a fuga desse vácuo é medo. E o medo nos impede de compreender esse abismo sem fundo. É uma neurose que de si própria se nutre. E, também, a medida, a comparação, é a essência mesma da dependência. Eis nos, pois, de volta à dependência; um circulo vicioso.


Interrogante: Percorremos uma longa distância nesta nossa palestra, e as coisas se tornaram mais claras. Há dependência; é possível não dependermos? Sim, acho que é possível. Em seguida o medo; é possível não fugirmos de maneira nenhuma do vazio, isto é não fugirmos por medo? Sim, creio possível. Isso significa que ficamos com o vazio. É, então possível enfrentar esse vazio, já que deixamos de fugir dele por medo? Sim, creio-o possível. E por último, é possível não medir, não comparar? Porque, se chegamos até este ponto – e acho que chegamos – resta-nos então, unicamente, o vazio, e vemos que ele é o resultado da comparação. E vemos, também, que a dependência e o medo provêm desse vazio. Temos, pois, a comparação, o vazio, o medo, a dependência. Posso realmente viver uma vida isenta de comparação, de medida?


Krishnamurti: Naturalmente, tendes de tirar medidas para colocar um tapete no soalho!Interrogante: Sim. Quero dizer: Posso viver sem comparação psicológica?Krishnamurti: Sabeis o que significa viver sem comparação psicológica, quando em toda a vossa vida fostes condicionado para comparar – na escola, nos jogos, na universidade, no escritório? Tudo é comparação. Viver sem comparação! Sabeis o que isso significa? Significa que não há dependermos de outros nem de nós mesmos, não há buscar nem indagar; por conseguinte significa – amar. O amor desconhece a comparação e, portanto o amor desconhece o medo. O amor não tem consciência de si próprio como “amor”; porque a palavra não é a coisa.


Krishnamurti – Do livro A luz que não se apaga - ICK
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