06 maio 2008

O MEDO

Interrogante: Tive o hábito de tomar drogas, mas dele já me libertei. Porque tenho tanto medo de tudo? De manhã, desperto paralisado de terror. Mal posso erguer-me do leito; tenho medo de sair de casa e tenho medo de ficar em casa. Subitamente, quando estou a dirigir o meu carro, esse medo se apodera de mim; passo o resto do dia a suar, nervoso, apreensivo e à noite estou completamente exausto. Por vezes, embora isso muito raramente aconteça, quando em companhia de amigos íntimos ou em casa de meus pais, perco este medo; sinto-me então tranqüilo, feliz, livre de toda tensão. Quando vinha hoje para cá, senti medo de ver-vos, mas, enquanto percorria o drive e ao dirigir-me à porta, perdi repentinamente o medo e agora, sentado aqui, nesta sala aprazível e tranqüila, sinto tão feliz que nem sei do que é que estava com tanto medo. Posso sorrir e dizer sinceramente: folgo muito em ver-vos! Mas, não posso permanecer aqui para sempre e sei que, quando me for embora, de novo me envolverá a nuvem do medo. Eis o problema que estou enfrentando. Já consultei não sei quantos analistas e psiquiatras, aqui e no estrangeiro, mas o que eles fazem é só exumar memórias de minha infância; e disso estou farto, porque o medo não desapareceu absolutamente.


Krishnamurti: Deixemos de parte as memórias da infância e outras futilidades, e vamos ao presente. Aqui estais, e dizeis que já não sentis medo; por ora, vos sentis feliz e mal podeis imaginar aquele medo que estivestes sentindo. Porque não o sentis agora? Esta sala tranqüila, clara, bem proporcionada, mobiliada com gosto, e o serdes recebido amistosamente – é por isso que não tendes medo agora?


Interrogante: Em parte. Talvez seja também por causa da vossa pessoa. Já vos ouvi na Suíça, e já vos ouvi aqui, e sinto por vós uma certa e profunda amizade. Mas, não quero depender de casas bonitas, de atmosferas acolhedoras e de bons amigos, para não sentir medo. Ao visitar meus pais, tenho este mesmo sentimento confortante. Mas, em casa é terrível; todas as famílias são terríveis, com suas atividades insignificantes e isoladas, suas brigas, suas banalidades e hipocrisia. De tudo isso estou farto. Todavia, quando visito os meus e há uma certa cordialidade, sinto-me deveras, temporariamente livre deste medo. Os psiquiatras podem me explicar a razão dele. Chamam-no um “medo flutuante”. Ele é como um abismo tenebroso e sem fundo. Já gastei grandes somas de dinheiro e de tempo com análises que, em verdade, não serviram para nada. Que devo fazer?


Krishnamurti: Será que, sendo uma pessoa sensível, necessitais de um certo abrigo, uma certa segurança e, não conseguindo encontrá-la, sentis medo deste mundo brutal? Sois sensível?


Interrogante: Sim, creio que sim. Talvez não o seja na vossa maneira de entender, mas sou sensível. Não gosto do barulho da agitação, da vulgaridade desta existência moderna, da maneira como o sexo é posto em evidência, hoje em dia, em toda parte aonde vamos, e da competição para obter-se um emprego detestável e insignificante – o que não significa que eu seja incapaz de lutar pra conquistar um lugar para mim também, mas essa luta me põe doente de medo.


Krishnamurti: A maioria das pessoas sensíveis tem necessidade de um refúgio tranqüilo, de uma atmosfera cordial, amigável. Ou eles a criam para si próprios ou ficam dependendo de outros que lha podem dar – da família, da esposa, do marido, do amigo. Tendes algum amigo desses?


Interrogante: Não. Tenho medo de ter um amigo desses. Tenho medo de ficar dependendo dele.


Krishnamurti: Eis, pois, a questão: Uma pessoa é sensível, necessita de um certo abrigo, e depende de outros para obtê-lo. Sensibilidade e dependência são duas coisas que, muitas vezes, andam juntas. E depender de outra pessoa é ter medo de perdê-la. Fica-se assim, dependendo mais e mais, e o medo cresce proporcionalmente à dependência. Um círculo vicioso. Já investigaste porque dependeis? Nós dependemos do carteiro, do conforto físico, etc.; isto é bem simples. Dependemos de pessoas e coisas para nosso bem estar físico e nossa sobrevivência, isto é perfeitamente natural e normal. Temos de depender disso que se pode chamar “o lado orgânico da sociedade”. Mas, dependemos também psicologicamente e essa dependência, embora confortante, gera medo. Porque dependemos psicologicamente?


Interrogante: Estais agora a falar-me de dependência, mas eu vim para conversar-mos sobre o medo.


Krishnamurti: Examinemos ambas as coisas, porque, como veremos, elas estão relacionadas uma com a outra. Objetais a que tratemos de ambas? Estávamos falando de dependência – que é dependência? Porque dependemos psicologicamente de outra pessoa? A dependência não é a negação da liberdade? Tirem-se lhe a casa, o marido, os filhos, as posses – que é um ente humano, se tudo isso lhe é retirado? Em si próprio, ele é insuficiente, vazio, sem rumo. Assim, por causa desse vazio, de quem tem medo, ele depende de posses, pessoas e crenças. Podeis sentir-vos tão seguro das coisas de que dependeis que não possais imaginar a possibilidade de perde-las – o amor de vossos filhos, e o conforto que ele proporciona. Todavia, o medo continua existente. Portanto, deve ficar-nos bem claro que qualquer forma de dependência psicológica gera inevitavelmente medo, ainda que as coisas de que dependemos possam parecer-nos quase indestrutíveis. O medo se origina dessa insuficiência interior, dessa pobreza e vazio interiores. Assim estais vendo temos agora três questões: a sensibilidade, a dependência e o medo? Três coisas relacionadas entre si. Consideremos a sensibilidade: Quanto mais sensível é a pessoa (a menos que saiba ser sensível sem dependência, saiba ser vulnerável, sem angústia), tanto mais depende. Agora, a dependência: Quanto mais a pessoa depende, tanto maior o seu desprazer e a necessidade de libertar-se. /essa necessidade de liberdade dá mais força ao medo, porque é uma reação, e não libertação da dependência.


Interrogante: E vós – dependeis de alguma coisa?


Krishnamurti: Decerto, fisicamente dependo de alimentação, roupas e morada, mas, psicologicamente, interiormente, não dependo de coisa alguma – nem deuses, nem da moralidade social, nem de crenças, nem de pessoas. Mas, não é relevante saber se eu sou ou não sou dependente. Portanto continuemos. O medo é o percebi mento de nosso vazio, de nossa solidão e pobreza interiores, e de não haver possibilidade de fazermos alguma coisa a respeito. O que nos interessa aqui é só esse medo que gera dependência e, por sua vez, é aumentado pela dependência. Se compreendermos o medo, compreenderemos também a dependência. Portanto, para compreendermos o medo, é indispensável sensibilidade, para descobrirmos, percebermos como ele se origina. Se o indivíduo é suficientemente sensível, torna-se cônscio de sua medonha vacuidade – desse abismo sem fundo que não se pode encher com o vulgar entretenimento das drogas, nem com o entretenimento das igrejas ou das diversões sociais; nada o preencherá. Sabendo-se disso, cresce o medo. Este nos impele à dependência, e esta dependência torna-nos cada vez mais insensíveis. E, vendo que assim é realmente, sentimos medo. A questão, pois, agora, é a de ultrapassarmos esse vazio, essa solidão, e não de apreendermos a depender de nós mesmos, ou de disfarçarmos permanentemente o nosso vazio.


Interrogante: Porque dizeis que a questão não é dependermos de nós mesmos?


Krishnamurti: Porque dependendo de vós mesmo, perdeis a sensibilidade; vos tornais endurecido, indiferente e “fechado”. Viver sem dependência, ultrapassar a dependência, não significa tornar-se dependente de si próprio. Pode a mente enfrentar aquele vazio e com ele viver, sem fugir em direção alguma?


Interrogante: Eu enlouqueceria, só de pensar em viver com ele para sempre.


Krishnamurti: Todo movimento para nos afastarmos desse vazio é uma fuga. E essa fuga de uma coisa, essa fuga de “o que é” é medo. O medo é fuga a alguma coisa. “O que é” não é medo, a fuga ao que é que é medo, e esta fuga é que poderá enlouquecer-vos, e não o próprio vazio. Que é, pois esse vazio e essa solidão? Como surge ele? Ele surge, decerto, por causa da medição e comparação. Comparo-me com o santo, o Mestre, o grande músico, o erudito, o homem que se “realizou”. Nessa comparação, vejo-me incompleto, insuficiente; não tenho talento, sou inferior, não me “realizei”; eu não sou, e aquele homem é. Assim em conseqüência do medir e comparar, vem-nos o horrível sentimento de vacuidade, de sermos “nada”. E a fuga desse vácuo é medo. E o medo nos impede de compreender esse abismo sem fundo. É uma neurose que de si própria se nutre. E, também, a medida, a comparação, é a essência mesma da dependência. Eis nos, pois, de volta à dependência; um circulo vicioso.


Interrogante: Percorremos uma longa distância nesta nossa palestra, e as coisas se tornaram mais claras. Há dependência; é possível não dependermos? Sim, acho que é possível. Em seguida o medo; é possível não fugirmos de maneira nenhuma do vazio, isto é não fugirmos por medo? Sim, creio possível. Isso significa que ficamos com o vazio. É, então possível enfrentar esse vazio, já que deixamos de fugir dele por medo? Sim, creio-o possível. E por último, é possível não medir, não comparar? Porque, se chegamos até este ponto – e acho que chegamos – resta-nos então, unicamente, o vazio, e vemos que ele é o resultado da comparação. E vemos, também, que a dependência e o medo provêm desse vazio. Temos, pois, a comparação, o vazio, o medo, a dependência. Posso realmente viver uma vida isenta de comparação, de medida?


Krishnamurti: Naturalmente, tendes de tirar medidas para colocar um tapete no soalho!Interrogante: Sim. Quero dizer: Posso viver sem comparação psicológica?Krishnamurti: Sabeis o que significa viver sem comparação psicológica, quando em toda a vossa vida fostes condicionado para comparar – na escola, nos jogos, na universidade, no escritório? Tudo é comparação. Viver sem comparação! Sabeis o que isso significa? Significa que não há dependermos de outros nem de nós mesmos, não há buscar nem indagar; por conseguinte significa – amar. O amor desconhece a comparação e, portanto o amor desconhece o medo. O amor não tem consciência de si próprio como “amor”; porque a palavra não é a coisa.


Krishnamurti – Do livro A luz que não se apaga - ICK
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