01 julho 2008

OBSERVAR


I.: Como pode um cego agir, se não tem percepção?
K.: Já alguma vez tentou vendar os seus olhos por uma semana? Eu já o fiz, por curiosidade. Sabe, desenvolvem-se outras formas de sensibilidade, outros sentidos tornam-se muito mais despertos: quando nos dirigimos para a parede, para a cadeira, ou para a mesa, sentimos antes a presença delas. Mas aquilo que estamos a falar é de estarmos cegos para nós próprios, interiormente. Reparamos muito nas coisas exteriores, mas interiormente estamos cegos.O que é ação? Será ela sempre baseada numa idéia, num princípio, numa crença, numa conclusão, numa esperança, num desespero? Se temos uma idéia, um ideal, estamos a ajustar-nos a esse ideal; há um intervalo entre o ideal e a ação. Esse intervalo é tempo. "Serei esse ideal, porque me identificando com ele, com o tempo, esse ideal atuará, e não haverá separação entre a ação e o ideal". O que é que acontece quando há este ideal e a ação que tenta aproximar-se dele? Nesse intervalo de tempo o que é que acontece?
I.: Uma comparação incessante.
K.: Sim, comparação, e tudo o resto. Se observarmos isso, que ação acontece?
I.: Ignoramos o presente.
K.: E que mais?
I.: Contradição.
K.: É, de fato, contradição - o que leva à hipocrisia. Sou colérico, e o ideal manda: "Não sejas colérico". Estou a reprimir, a controlar, a conformar-me, a tentar aproximar-me do ideal e, portanto, estarei sempre em conflito e a iludir-me. O idealista é uma pessoa que se ilude a si próprio. Também, nesta divisão, há conflito. Há ainda outros fatores que surgem.

Saanen, Agosto 7, 1969
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