07 abril 2009

Às vezes


Alberto Caeiro

Às Vezes


Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,

Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim próprio devagar

Por que sequer atribuo eu

Beleza às cousas.


Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

Não: têm cor e forma

E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe

Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.

Então por que digo eu das cousas: são belas?


Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,

Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as cousas,

Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


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