18 maio 2009

A Chave do Céu



Como se abre a porta do céu? É preciso uma chave, essa chave é a “ação feminina”





Jornal Tao do Taoísmo - n. 15 índice



A porta do Céu é uma abertura para o universo maior. É o canal que leva a pessoa para uma consciência maior e ilimitada.


Na simbologia do I Ching, existe a trilogia do céu, da terra e do homem. O céu é a antítese da terra. A terra é finita e o céu é infinito. Pode-se medir o tamanho da terra mas é impossível se medir o tamanho do espaço. O portão do Céu se encontra dentro do homem e é uma abertura onde a consciência do homem pode se encontrar com a dimensão da infinitude.


Como se abre a porta do céu? É preciso uma chave, essa chave é a “ação feminina”. A ação feminina não é uma ação brusca mas sim uma ação suave. No I Ching, a linha Yang é a linha da força e a linha Yin é a linha da suavidade. Ação feminina é uma ação de suavidade. Não se pode abrir a porta do céu de forma brusca ou dura. Essa chave é a chave da não-chave. Para se abrir a porta do universo não se usa nem força nem conhecimento, mas sim o coração, através da ação feminina.


No imaginário ocidental, a ação feminina está próxima ao conceito da intuição. Na verdade, é algo mais amplo do que apenas a intuição.


Na prática mística entra-se nesse canal para se atingir o estado da infinitude da consciência e da vida. Não se abre essa porta através de pensamentos nem de força, mas sim de algo mais sutil. Então, é preciso ir sutilizando a consciência para fazer essa passagem. É uma passagem para o outro lado que é o infinito, sendo esse infinito de um tamanho infinitamente reduzido. Quanto mais sutil a pessoa se tornar, mais sutil também se torna a porta, apenas que sempre mais sutil do que a pessoa, então é preciso se sutilizar ainda mais… Através da ação feminina, a pessoa vai se sutilizando cada vez mais até se igualar com a sutileza da porta do céu. Então se atravessa o vazio até o absoluto. A pessoa se torna o próprio vazio do absoluto. Nessa hora, faz-se a passagem para o outro lado. É uma viagem infinita que se vai entrando… entrando… entrando… entrando…


Na prática inicial da meditação sente-se essa sensação. É uma sensação de estar entrando dentro de um tubo e não ter mais o corpo físico, nem memória, nem pensamentos: apenas uma consciência sempre mais e mais sutil. Isso é abrir a porta do céu através da ação feminina. Esse conceito é importantíssimo em relação a nossa prática mística, pois permite alcançar um nível de consciência cada vez mais sutil até alcançar uma consciência ilimitada. Quando, por meio da meditação, se alcança esse nível de consciência, atinge-se o Vazio, alcança-se a Não-existência, a Abrangência.

A existência representa a manifestação, a criatividade. Ela é – num exemplo – como uma representação teatral, que tem o seu começo, seu durante e seu fim. Porém o espaço, o Vazio de que dispõe o teatro para que possa haver cenário, palco, espetáculo, trama, atores: isso é a não-existência. Essa não-existência é o Vazio que permite a forma existir. É o silêncio do teatro que permite a voz e o som dos atores serem ouvidos.

Igualmente, em nossa vida, se tivermos um espaço em nosso coração, podemos abrigar as expressões da vida. Se existir um silêncio em nossa mente, podemos ouvir e expressar a sabedoria da vida. Por isso, no Taoísmo enfatizamos como prioridade o trabalho da meditação.

O que é o trabalho da meditação? É o trabalho do silêncio, o trabalho do Vazio. Fechamos os olhos, trazemos a consciência para o interior, tentamos reduzir os pensamentos e diálogos interiores para podermos ter o silêncio dentro de nós. Quanto maior o nosso silêncio, maior percepção desenvolvemos. Quando estamos no silêncio, podemos observar e perceber muito mais sons e vozes. Analogicamente, isso significa que quanto mais quietude interior temos, maior capacidade teremos para observar, pensar e discernir as coisas.


O silêncio interior é essencial.


Quando temos muito barulho interior, temos menos capacidade de discernir o que deve ser feito, o que é correto, o que é oportuno, o que é inoportuno. E devido ao tumulto interior acabamos tomando decisões erradas e entramos em atividades no momento inadequado. Por isso o silêncio é prioritário.

É a não-existência que permite a existência.


O resgate deste vazio é a base do caminho espiritual. Sua importância pode ser sintetizada através da história que narra o encontro de um mestre com um discípulo que, na busca da confirmação do seu caminho espiritual, procura derrubar o mestre em um debate altamente metafísico, repleto de conceitos e teorias. Ao perceber o problema, o mestre oferece chá para o discípulo. Ao servi-lo, o mestre enche completamente a xícara e deixa o chá transbordar continuamente. Ao avisar o mestre que o chá está transbordando, recebe o seguinte ensinamento: “Pois é meu caro rapaz, quando a xícara está cheia, não cabe mais nada dentro dela. Por isso, o vazio interior é fundamental.” Em geral, nós estamos tão cheios, com tudo tão espremido e comprimido dentro de nós, que nos tornamos rígidos e sem espaço para a entrada de uma nova idéia, conceito ou energia.
Por isso os mestres taoístas dizem:


“Caminho é Vazio.Virtude é Vida. Vida que corre no Vazio é a Virtude que existe no Caminho.”

11 maio 2009

Nutrindo Paz - continuação ...


A QUARTA NUTRIÇÃO: CONSCIÊNCIA

O quarto tipo de comida é a consciência. No Budismo nós falamos de consciência como tendo dois níveis. O nível mais baixo é chamado consciência armazenadora e o nível superior é chamado consciência mental. Quando nós pensamos, calculamos ou sonhamos, estamos trabalhando no nível da consciência mental. A consciência mental é como uma sala de estar. Debaixo está um porão muito grande, a consciência armazenadora. Tudo que você não gosta põe embaixo no porão. A consciência armazenadora guarda tudo na forma de sementes. É como a terra, se você molhar essas sementes, elas brotam.

Cinqüenta e um tipos de sementes, saudáveis e não saudáveis vivem na consciência armazenadora. Sementes saudáveis são sementes de amor, perdão, generosidade, felicidade e alegria. Sementes não saudáveis incluem ódio, discriminação e desejo. De acordo com a psicologia budista, quando estas sementes se manifestam são chamadas formações mentais. Por exemplo, nossa raiva é uma formação mental. Quando não estiver se manifestando, nós não nos sentimos bravos. Mas isto não significa que a semente de raiva não está em nós. Todos temos a semente de raiva que dorme em nosso porão, nossa consciência armazenadora. Nós podemos brincar e podemos nos divertir e não sentimos raiva, mas se alguém vem e rega a semente de raiva em nossa consciência armazenadora, ela começará a brotar e entrará em cima na nossa sala de estar. No princípio era só uma semente, mas uma vez que foi regada, surgirá e se tornará a formação mental de raiva, levando embora toda a nossa felicidade.

O Buda usou a seguinte imagem para ilustrar o quarto tipo de nutrição. Um criminoso estava preso. O rei deu a ordem para apunhalá-lo com cem facadas. O criminoso não morreu. O mesmo castigo foi repetido ao meio-dia, e pela noite. Ainda assim, ele não morreu. O castigo foi repetido no dia seguinte, e no próximo. Da mesma maneira, nós nos permitimos apunhalar a nós mesmos centenas de vezes por dia através de formações mentais negativas. Quando qualquer semente se manifesta em nossa consciência mental, nós a absorvemos e isto é chamado alimento de consciência, a quarta nutrição. Se nós permitirmos que a raiva entre em nossa consciência mental e fique durante uma hora inteira, durante toda aquela hora nós estaremos comendo raiva. Quanto mais nós comermos raiva, mais a semente da raiva cresce. Se a semente de bondade surge em sua consciência mental, e você puder manter ela lá durante uma hora inteira, então durante aquele tempo você estará consumindo uma hora inteira de bondade.

Nós podemos ajudar uns aos outros regando as sementes saudáveis em nossa consciência armazenadora. Nós podemos dizer aos que estão próximos a nós, "Querido, tenhamos cuidado para não regar as sementes não saudáveis em nós. Reguemos só as sementes saudáveis em nós e então poderemos dar alimento nutritivo para nossa consciência." Quando nós regamos sementes de perdão, aceitação e felicidade na pessoa que amamos, estamos lhe dando alimento muito saudável para a sua consciência, como se nós estivéssemos cozinhando uma refeição saudável deliciosa para ela. Mas se nós constantemente regamos a semente de ódio, desejo e raiva dentro nosso amado, nós estaremos o envenenando.

Nós poderíamos nos sentar com nossa família e escrever um acordo que todo mundo pudesse assinar junto, comprometendo a regar as sementes saudáveis uns nos outros. Se nós pudermos praticar deste modo então nossos filhos poderiam praticar também. Um acordo assim poderia ser a fundação de nossa felicidade. Se você se nutrir com as quatro nutrições, ao consumir uma dieta saudável de alimentos comestíveis, sensações, desejos, e formações mentais, então você e seus familiares se beneficiarão de modo concreto. Budismo passa a não ser apenas ensinamentos abstratos, mas algo que muda sua vida diária.

O Buda disse, "Nada pode sobreviver sem comida”. Esta é uma verdade muito simples e muito profunda. Amor e ódio ambos são coisas vivas. Se você não nutrir seu amor, ele morrerá. Se você cortou a fonte de nutrição para sua violência, sua violência morrerá. Se você quiser que seu amor dure, você tem que alimentá-lo diariamente. Amor não pode viver sem comida. Se você negligenciar seu amor, depois de um tempo ele morrerá e o ódio pode surgir. Você sabe nutrir seu amor?

Se nós não dermos comida ao ódio, ele também morrerá. Ódio e sofrimento crescem mais porque diariamente nós os nutrimos, lhes dando mais comida. Com que tipo de comida você tem nutrido seu desespero e seu ódio? Se você estiver deprimido, você pode não ter nenhuma força e nenhuma energia sobrando. Você pode sentir que quer morrer. Por que você se sente assim? Nossa depressão não vem do nada. Se nós pudermos reconhecer a comida que nutriu nossa depressão, podemos deixar de consumi-la. Dentro de algumas semanas nossa depressão morrerá de fome. Se você não sabe o que está regando sua depressão, continuará fazendo as mesmas coisas diariamente. O Buda disse que se nós soubermos como olhar profundamente em nosso sofrimento e reconhecer o que o alimenta já estamos no caminho de libertação.

A saída para o nosso sofrimento é consumo consciente, não só para nós mesmos, mas para o mundo inteiro. Se nós soubermos regar as sementes de sabedoria e compaixão em nós, estas sementes se tornarão fontes poderosas de energia que nos ajudarão a perdoar os que nos feriram. Isto trará alívio à nossa nação e ao nosso mundo.

(Traduzido do livro “Calming the fearful mind” – Thich Nhat Hanh –por Leonardo Dobbin)

Nutrindo Paz - continuação...


A TERCEIRA NUTRIÇÃO: NOSSO DESEJO MAIS PROFUNDO

O terceiro tipo de comida é a volição, nosso desejo mais profundo. Nós temos que perguntar para nós mesmos, o que é meu desejo mais profundo nesta vida? Nosso desejo pode nos levar na direção da felicidade ou na direção do sofrimento. Desejo é um tipo de comida que nos nutre e nos dá energia. Se você tem um desejo saudável, como o desejo de proteger a vida, proteger o ambiente, ou viver uma vida simples com tempo para ter cuidado com você e seu amado, seu desejo trará felicidade. Se correr atrás de poder, riqueza, sexo e fama, pensando que eles trarão felicidade, você estará consumindo um tipo muito perigoso de comida que te trará muito sofrimento. Você pode ver que isto é verdade dando uma olhada ao seu redor.

Por favor, gaste algum tempo para escrever seu desejo mais profundo. Você quer viver como uma pessoa livre sem preocupações? O desejo de ser uma pessoa livre vale muito a pena. Ser livre significa que você não será mais vítima do medo, raiva, desejo ou suposições. Você quer isto? Talvez você queira, mas não quer o bastante. Você tem outros desejos tais como querer uma casa maior ou um carro melhor ou comida mais gostosa. Esses poucos desejos o distraem de seu desejo mais nobre. Se o desejo de Siddhartha para liberdade não tivesse sido forte, ele não teria sido capaz de superar os desejos sensuais.

Se quiser perceber quais são seus desejos profundos, você tem que realmente querer. Talvez você deseje uma comunicação melhor com seu parceiro. Talvez você tenha dificuldade com seu parceiro e vocês não possam olhar mais um para o outro. Talvez você deseje uma relação mais íntima com seus filhos. Quando você e sua família estiverem contentes, então você terá a oportunidade de ajudar outras pessoas e seu país.

Texto na integra: Nutrindo Paz
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