31 agosto 2009

O "Eu"...


O "eu" é a muralha autodefensiva que nos separa da realidade. Ele tem horror ao presente e por isso procura sempre refúgios para manter a sua conti­nuidade.

É ele que cria todas as limitações, todos os refú­gios, todas as sutilezas geradoras de confusão e atrito. Quando o indivíduo desperta rompe com o passado, com todos os obstáculos, limitações e seitas. São estas coisas que segregam o indivíduo do todo, quando a fina­lidade da existência é a integração do indivíduo na vida universal. A princípio temos vislumbres dessa reali­dade, e então prelibamos a felicidade inexprimível do que seja o contato vivo, permanente, sem muralhas, com o Todo.

Esses vislumbres são rápidos contatos com a grande realidade, quando eles se tornam permanentes há o deslumbramento do ser e o contato vivo com o eterno vir a ser da vida universal. Nesse caso o indivíduo deixa de viver entre muralhas para ser uno com o mundo. Varre de si o sonho de que é parte autônoma e reconhece em si e no todo a mesma alma, a mesma essência, a mesma vida. A personalidade do ego edifi­cada nas areias do tempo foi dissolvida pelas águas da eternidade. E a vida deixa de ter além e aquém para só ter agora, porque o presente encerra a eternidade. Vivamos, pois, o momento que passa. Renunciar ao presente imediato é fugir e não entender. É um pretexto para continuar a sonhar. É a continuação do egoísmo que fez a vida social cruel e má.

A causa do conflito está na luta cruel, e titânica, existente entre a vida universal, cotidiana, incondicio­nada, dinâmica e plástica e a atitude que assumimos diante dela, porque nos apoiamos como meio autodefensivo sobre o passado cheio de afirmativas condicio­nadas, repleto de ilusões, sentimentos de posse e múl­tiplas particularidades. O conflito está aí — queremos sufocar a realidade presente com as sombras do pas­sado. A amplificação do "eu", que é separação, não pode conduzir ao universal. Á libertação não é a amplifi­cação do "eu", mas o desgaste do sentimento de separação.

Isso significa que a libertação é a extinção da sepa­ratividade e, portanto do ego. Quando o "eu" se quebra como uma bola de espuma, disse o Buda, seu conteúdo será conservado e viverá, na verdade, a vida eterna. Ou então como diz Krishnamurti: integrar-se no pre­sente sem lhe interpor o passado, que é o "eu", ou o futuro, que é ainda a sua continuação, é atingir a realidade, a perfeição verdadeira e absoluta.

O ser diz: eu sou vida. O “eu” diz: eu sou eu! O ser é indiferenciado, é universalidade, é uno com a vida total. O “eu” é separação. Todo o drama da existência se desenrola entre o ser que quer recuperar a sua liberdade e o “eu” que quer prolongar o seu enjaulamento.

Francisco Ayres
Texto estraido do site: Cuidar do Ser
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