11 março 2010

O Sofrimento e o tempo - por J.K.

Todos conhecemos o sofrimento. Há o sofrimento da mente que nunca se preencheu; que é pobre, vazia, insensível; que se tomou mecânica, cansada; que vê uma nuvem e não conhece a beleza dessa nuvem; que nunca foi capaz de ser sensível, de sentir, compreender, viver. Há o sofrimento da "não realização", do "não vir-a-ser", do "não ser". O sofrimento da desilusão da vida. O sofrimento causado pela incapacidade de percebimento por parte da mente apoucada, inepta, ineficiente, limitada, superficial. O sofrimento da mente que se reconhece estúpida, embotada, indolente e que, por maiores esforços que faça, nunca se toma penetrante, lúcida, viva; isso também gera sofrimento.

Nunca exploramos essa coisa extraordinária e dolorosa, chamada "sofrimento"; e não podemos explorá-la, se a evitamos. É o que se precisa perceber em primeiro lugar: que não devemos evitá-la. Evitamos o sofrimento por meio de explicações, de palavras, de conclusões, de fórmulas, ou da bebida, dos divertimentos, dos deuses, do culto. A mente que deseja deveras compreender e pôr fim ao sofrimento deve deter completamente toda espécie de fuga. Esta e uma de nossas maiores dificuldades, porquanto temos todo um sistema de fugas, um complicado sistema de fugas. A própria palavra "sofrimento" é uma fuga ao fato real.

Por favor, procurai escutar com vossa mente e vosso coração, e não apenas verbalmente, pois desta maneira nada alcançareis e partireis desta texto levando apenas cinzas. Se não estais escutando com aquela qualidade de atenção, o fazeis por vossa própria conta, pois eu estou falando de algo que vos concerne e não a mim. O problema é vosso; tendes de atendê-lo e de ‘"viver com ele", transcendê-lo. Deveis, pois, escutar com intensidade, com paixão e vigilância: Não digais: "Como posso manter-me vigilante, apaixonado?" Não digais "como", não há sistema nenhum. isso é como procurardes um médico quando necessitais de ser operado. Estais então diretamente em contato com o fato, ou seja que precisais ser operado. E, assim, tendes de dar-vos por inteiro à decisão de operar-vos ou não. Da mesma maneira, para poderdes enfrentar o tempo, compreender essa coisa chamada "sofrimento" — todas as vossas fugas, os deuses, as bebidas, as diversões, o rádio, tudo deve acabar.

Visto que o sofrimento é pensamento, e o pensamento tempo, deveis compreender o tempo. Há o tempo do relógio — ontem, hoje e amanhã. O Sol se põe e o Sol nasce ― o fenômeno físico. O ônibus sai a uma certa hora, e o trem parte na hora marcada; é esse o tempo do relógio, o tempo cronológico. Mas, existe outro "tempo"? Fazei a vós mesmo esta pergunta: "Há outro tempo, além do tempo cronológico?". Há: o tempo compreendido como duração, separado do tempo cronológico, do tempo do relógio, Há duração, a continuidade da existência ― eu fui. eu sou, eu serei. As memórias, as experiências, as diferentes ansiedades, temores, esperanças — tudo isso está na esfera do tempo entendido como "passado". E esse passado, que é psicológico, que é memória, essa carga de ontem, com todas as suas experiências, eu a estou transportando hoje; a memória a está transportando hoje, memória essa que está identificada, pelo pensamento, como "Eu". Se não houvesse memória, se não houvesse identificação com aquela memória de que nasce o pensamento, não haveria nenhum "centro", ou seja "Eu", a transportar aquela carga de dia para dia.

Temos, pois, o tempo marcado pelo relógio. E há o tempo psicológico; mas este tempo é válido? É o tempo verdadeiro? O tempo não é o intervalo existente entre ações? Quando há ação espontânea, real, não há, com efeito, tempo. Estais esquecido do passado, do presente e do futuro, quando estais vivendo naquele estado de ação. Mas, quando a ação procede do passado, introduzistes o tempo na ação. Isto exige muita atenção de vossa parte, porque estamos tratando de um problema sumamente complexo, relativo à ação dentro do campo do tempo e à ação fora do campo do tempo; não se trata de teorias, não se trata do que está dito no Gita ou no Upanishads.

Quando este orador vos fala de "ação", não compareis, não digais que "assim" está dito nos livros porque, nesse caso, não estais "vivendo com a questão"; estais "vivendo" com aquilo que ouvistes, com o que outra pessoa vos disse. O que outro disse pode não ser verdadeiro; não o é. Deveis investigar a questão por vós mesmo, e nesse investigar há extraordinária força, vitalidade, beleza, e originalidade. Tendes de ser original, e não citar o que disse Buda, Sankara ou outro qualquer.

Dissemos que o tempo é o intervalo existente entre ações. A mente que está em ação pode existir sem o tempo. Prestai atenção, por favor. A mente que está em ação com uma ideia, um motivo, uma finalidade, uma fórmula, está enredada no tempo; sua ação, por conseguinte, não se completa e, portanto, dá continuidade ao tempo. Como sabeis, o tempo, para nós, é não só duração psicológica, mas também continuidade da existência. Serei isto futuramente ― amanhã ou no próximo ano. Esse "ser futuramente" está condicionado não só ao ambiente, à sociedade, mas também à reação a tal condicionamento, tal sociedade ― reação que consiste em dizer: "Serei isto e o alcançarei futuramente". Quando uma pessoa diz: "Se hoje não sou feliz, se não sou rico interiormente, profunda, ampla, inexaurivelmente rico, eu o serei" — essa pessoas está na armadilha do tempo. O homem que pensa que será alguma coisa e se está esforçando para alcançar o que será, para esse homem a maior aflição é o tempo.

E possível a mente achar-se sempre em ação, diretamente, espontânea e livremente, de modo que nunca tenha um momento de tempo? Porque o tempo é pensamento periférico. Todo pensar é periférico, marginal ― todo. Pensamento é reação da memória, da experiência, do conhecimento, acumulados; daí procede o pensamento, a reação ao passado. O pensamento jamais pode ser original. Podeis usar palavras, pertencentes ao passado, expressar o original, mas o original não pertence ao tempo. Por conseguinte, para descobrir o original deve a mente estar inteiramente livre do tempo — do tempo psicológico; da duração; da ideia de "serei", "alcançarei", "tornar-me-ei".

Por isso eu digo que o tempo é veneno, que o tempo é um perigo contra o qual deveis estar sumamente precavidos, perigo tão vivo como um tigre. Deveis estar consciente, a cada minuto, de que o tempo é um veneno mortal, uma coisa fictícia. Estais vivendo hoje; e não podeis viver hoje de modo completo, com riqueza, plenitude, com extraordinária sensibilidade à beleza, à graça, se vindes com toda a carga de ontem. É preciso, pois, examinar a questão da memória. Memória, conhecimento, experiência, todo o acúmulo de dados científicos e técnicos, são da maior importância quando se trata de executar um trabalho material. Nas coisas de que necessitamos para viver, a memória deve funcionar com o máximo de eficiência, qual um cérebro eletrônico. Este é capaz de coisas as mais extraordinárias: pintar, escrever poemas, traduzir, e até dirigir uma orquestra. Mas, esse cérebro eletrônico só pode funcionar com os dados que lhe são fornecidos, por associação, etc. E quando se faz uma pergunta ao cérebro eletrônico, devem-se usar termos precisos; senão, ele não responderá. Por isso mesmo, há hoje todo um conjunto de cientistas empenhados em investigar a questão da ação na linguagem; mas não é este o assunto que nos interessa no momento.

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Seleções do livro: O Despertar da Sensibilidade

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