25 maio 2010

Você é Livre?

O pensar é um processo que nasce da experiência e do conhecimento. Escutem isso tranqüilamente, vejam se isso não é verdadeiro, real; então o descubram por si mesmos (…) O pensar parte da experiência, que se converte em conhecimento, o qual se acumula como memória nas células do cérebro; depois, a partir da memória, surgem o pensamento e a ação. (…) Essa seqüência é um fato real: experiência, conhecimento, memória, pensamento. Então dessa ação aprendemos mais; existe, pois, um ciclo, e essa é nossa cadeia.

Se o cérebro não desenvolve sua capacidade máxima, não é capaz de ser livre. Porque a mente embotada, superficial, estreita, vulgar, só é capaz de reagir ao ambiente e, em virtude dessa reação, se torna escrava desse ambiente. Daí nasce o problema de nos libertarmos do ambiente, de deixarmos de ser escravos de toda sorte de influências, diretrizes, impulsos. Assim, o que é importante é sentir-nos totalmente livres. 

Antes de tudo, você admite que está condicionado? Está consciente - cônscio sem escolha - de que o seu cérebro está condicionado? Ou você aceita o que alguém diz e por isso simplesmente repete: “Meu cérebro está condicionado”? Vê a diferença? Se estou consciente de que meu cérebro está condicionado, tem isso um valor completamente diferente.

Mas se imagino que estou condicionado, meramente porque você mo diz, então esse conceito é muito superficial. Portanto, você está cônscio de que está condicionado - pela nacionalidade, por sua experiência, cultura, tradição, pelo meio ambiente, por toda a propaganda religiosa do cristianismo, budismo ou hinduísmo?

Mas o conhecimento também condiciona seu cérebro (…) como tradição, programado como você é por jornais, revistas, pela constante repetição de que você é inglês (…) Ou quando você vai à França, à Índia ou outro lugar qualquer, ocorre a mesma coisa, essa constante repetição de sua nacionalidade. Por isso, o cérebro se torna estúpido, repetitivo, mecânico. (…)

Para sondar alguma coisa totalmente desconhecida, não preconcebida, não enredada em alguma ilusão sentimental ou romântica, deve haver uma qualidade do cérebro que seja completamente livre; livre de todos os seus conhecimentos, programações, de todo tipo de influência e, portanto, um cérebro que seja altamente sensível e tremendamente ativo.

É isso possível? Você possui um cérebro assim, ou ele é lento, preguiçoso e vive em seus próprios autoconceitos? Como é ele? Porque vamos pesquisar algo que exige uma mente, um cérebro, que esteja extraordinariamente vivo, não aprisionado em nenhuma forma de rotina, não mecânico. Você tem tal cérebro sem medo, livre de auto-interesse, não autocentralizado, ativamente?

Mas, como, de que maneira e em que nível irá realizar-se essa revolução? (…) E observa-se, também, que a mente, o próprio cérebro se tornou mecânico e, por conseguinte, repetitivo: ensine-lhe certo padrão de comportamento, certas normas de conduta, certas atitudes, desejos, ambições, etc., e ele ficará funcionando dentro desse canal, desse padrão.

Pode-se, por conseguinte, ver que a própria natureza do cérebro deve passar por uma tremenda revolução - revolução que vos interessa, não na qualidade de indivíduo unicamente interessado em seu pequenino cérebro, porém na qualidade de ente humano. (…)

A verdadeira questão, por conseguinte, é esta: É possível a vós e a eu promovermos essa mutação no uso do próprio cérebro, uma revolução que não seja processo gradativo, no tempo, porém revolução, mutação imediata, resultante da compreensão imediata? Assim, se vos aprouver, limitemo-nos (…) ao que eu já disse. Percebemos a necessidade de uma revolução fundamental na própria estrutura do cérebro; “estrutura”, não no sentido biológico, porém a estrutura de nosso pensar (…) Para promover-se a revolução fundamental, necessita-se de grande quantidade de energia; e essa energia só pode tornar-se existente, quando há madureza.

Agora espere, talvez o senhor esteja certo. Quando o velho cérebro vê que nunca pode entender o que é liberdade; quando vê que é incapaz de descobrir algo novo, essa verdadeira percepção é a semente da inteligência, não é? (…) Pensei que pudesse fazer muitas coisas, e posso, em uma certa direção, mas em uma totalmente nova direção nada posso fazer. A descoberta disso é inteligência, obviamente.

Você vê, a inteligência não é pessoal, não é resultado de argumento, crença, opinião ou razão. A inteligência manifesta-se no ser quando o cérebro descobre sua falibilidade, quando descobre do que é capaz e do que não é. Agora, qual é a relação dessa inteligência com aquela dimensão? Prefiro não usar a palavra “relação”

Deve haver profunda percepção, isenta de escolha, para compreender o processo da consciência. Essa necessidade surge apenas quando há sofrimento. Para descobrir a causa do sofrimento, a mente deve ser aguda, plástica, sem escolha (…) Se não houver discernimento do processo da consciência individual, então a ação criará sempre confusão, limitação, e, portanto, produzirá sofrimento e conflito. (…)


(…) não podemos descartar o nosso saber, nossas experiências e lembranças, pois essas coisas têm existência. (…) O homem que está observando o perpassar das suas experiências, lembranças, conhecimentos, sem a essas coisas se prender, esse homem não aspira à virtude, não está acumulando. E quando a mente já não está acumulando, quando a mente está desperta para todo o processo da consciência, com todas as suas lembranças e seus motivos inconscientes, todos os impulsos de gerações, de séculos, deixando tudo isso passar por ela sem a prender - não se acha então a mente fora do tempo?

Antes que vos possais tornar plenamente conscientes, e, dessa forma, perder a autoconsciência, há três condições a passar, relativas à consciência. Na primeira delas, o indivíduo é escravo dos sentidos e de seus anelos. Para satisfazê-los, torna-se ele simplesmente egoísta, dependendo, inteiramente, para sua felicidade, das coisas exteriores, das sensações e excitações, (…) emaranhado na tristeza e na dor. (…)

Toma cada vez maiores responsabilidades sobre si e torna-se, por essa forma, um simples escravo da ação. Tal homem não tem tempo nem inclinação para a quietação do pensamento, para a reflexão, para o exame. Pois a verdadeira reflexão cria a dúvida, as investigações levam ao isolamento, ao afastamento, o que ele cuidadosamente evita.

Depois, vem o segundo estádio, em que o homem se apercebe de suas faltas, de seus defeitos, de suas ilusões, de suas crueldades. Tornando-se, assim, consciente de sua própria natureza, tenta desembaraçar-se, livrar-se do domínio dos sentidos e começa a libertar a mente e o coração.

Começa por diminuir, gradualmente, as próprias responsabilidades, sem abandonar sua vida na torrente do mundo. A ação, nascida da consciência de si mesmo, e na qual existe a separatividade, é embaraçante, limitadora, pesada; porém a ação que é resultado da liberdade, da individualidade (ente individualizado) é libertação.

O individuo que possui, agora, o forte desejo de libertar-se, começa a disciplinar-se. Essa disciplina não lhe é imposta pelo exterior, não é resultado de repressão; antes, em virtude do seu desejo de ser livre, de realizar a verdade, impõe ele a si próprio uma disciplina oriunda do entendimento - não oriunda do medo, não coagido pelas circunstâncias sociais ou pelo ambiente. Deseja então libertar a mente, o coração e, desse modo, viver em harmonia. (…)

Em seguida vem o terceiro estádio da consciência, em que o homem está completamente senhor dos sentidos, (…) do seu corpo. Isso não significa ser desenvolvido muscularmente (…); será senhor do corpo, no sentido de não mais se emaranhar em seus anseios, suas sensações e excitações. (Idem, pág. 26)
Começa ele, então, a libertar-se do medo e das ilusões que ele próprio cria. Uma vez que estejais libertos das ilusões, do temor, de todas as outras qualidades, haverá para vós um como retiro interior nascido da alegria, retiro nascido não do tédio, nem do retraimento, nem do intuito de fugir a este mundo de conflito, porém um retiro interno de alegria em meio da ação.

Quando tal acontecer, a reflexão e a análise virão dar lugar a uma concentração tremenda; não a concentração sobre um objeto, mas a concentração em que não há sujeito nem objeto, o pleno conhecimento em que não há mais contrastes. (Idem, pág. 26)
Ulteriormente, proveniente desse retiro, manifesta-se uma harmonia interior, a equanimidade entre a razão e o amor - o pensamento liberto das fantasias e teorias pessoais, o amor liberto da especialização, amor que é como o perfume de uma flor.

Quando existe essa harmonia, não mais se inquire a respeito do futuro e do passado. (…) O passado, com suas faltas e tristezas, desaparece, e o futuro, com suas esperanças, anseios e antecipações, desaparece também; oriunda desses dois termos, nasce a harmonia do presente, a qual é a realização dessa inteireza que existe em todas as coisas. Quando ela for realizada, haverá tranqüilidade, haverá a realidade viva da felicidade.

Agora, a questão é esta: Nosso cérebro é o resultado de dois milhões de anos, do animal até nossa presente situação, qualquer que seja ao grau de evolução que tenhamos atingido - pois ainda somos “o animal”. (…) Vós tendes de libertar vossa mente do “animal” ou seja, da avidez, da inveja, do medo, da ambição - de todas as nossas estúpidas trivialidades (…) Só então poderá a mente transcender a si própria e descobrir se há uma Realidade, Deus, alguma coisa de atemporal.

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