14 junho 2010

A constante Mutação

“Não há o que mude, não há quem mude, pois só há o mudar”
I Ching

Ao observarmos o mundo a nossa volta e ao observamos o mundo profundamente no seu próprio interior, constatamos um fluir contínuo do qual nada escapa.

Este princípio está presente em tudo. Na natureza podemos observá-lo quando percebemos que nunca vemos as mesmas flores, mas sempre a Primavera.

Os fenômenos são incontáveis e distintos uns dos outros, porém regidos, em suas tendências de mudança, pelos mesmos e constantes princípios.

Quando percebemos o significado da mutação, não fixamos mais nossa atenção sobre o que é transitório e individual, mas sim, na imutável e eterna lei que atua em toda mutação. Essa lei é conhecida como Tao, o princípio Uno no interior da multiplicidade.
Para iniciarmos nossa jornada, é de imensa importância a compreensão do Tao. De acordo com Lau-Tzu: “O Tao que pode ser pronunciado não é o Tao eterno”. Mas o que isso quer nos dizer exatamente?

Para que a Lei Maior possa se manifestar é necessário uma ação, que chamamos de “Grande Princípio Primordial” em tudo que existe, em tudo que está manifesto. Este grande princípio, a viga mestra, é simbolizado por um círculo dividido em luz e sombra, o “t’ai chi”, ilustrando a maneira de como os dois princípios contém toda a criação e de que forma eles fluem um no outro e que há sempre sombra dentro da luz e luz dentro da sombra.
O importante em tudo isso é que há uma relação universal e harmônica entre o macrocosmo e o microcosmo. Nós somos o microcosmo, refletimos em nós todas as leis, não somos indivíduos isolados, mas o resultado da união do Céu com a Terra, Luz e Sombra.

A vida é um contínuo movimento de relações, e só quando compreendermos essas relações como um todo e não fragmentariamente, poderemos resolver os problemas individuais. Por “problemas” entendo as dificuldades que enfrentamos diariamente, por exemplo: a falta de compreensão, as inumeráveis dúvidas e questões, os desequilíbrios, a luta constante para nos ajustarmos a um padrão de crença, as normas sociais, e outros.
A partir dessas dificuldades, fizemos de nossa vida interior uma coisa separada. Cansados da nossa vida mundana, com seus horrores e brutalidades, tratamos de evadir-nos, e estabelecemos dentro em nós uma “vida espiritual”.

Não podemos estabelecer para nós mesmos uma vida espiritual sem termos, primeiramente, liberdade! Porque o que quer que façamos, nenhuma possibilidade temos de alcançar ou compreender o Tao, se não estivermos livres da luta exterior e interior de cada dia, ou seja, da dor, do sofrimento, da avidez, da ambição.

Essa separação entre a vida mundana e vida espiritual se tornou um grande problema para a verdadeira liberdade. Como disse, a vida é um movimento de relações, não só com pessoas, mas com tudo, com a natureza, dinheiro, ideias, etc.

A distorção está no fato que estamos buscando algo que seja eterno. Apesar de termos constatado que tudo é constante mutação, isso acontece porque não estamos vendo a Vida.
Nunca olhamos para a nossa própria vida, como um enorme movimento de grande profundidade e vastidão. Nunca vemos o mundo como um todo, porque somos muitos fragmentados, extremamente limitados. Nunca temos o sentido do Tao, em que as coisas do mar, da terra, da natureza, do céu, do universo fazem parte de nós.

Não adianta ver através da imaginação, isso não vai ajudar. Temos que ver aqui e agora, e precisamos de grande humildade para isso.
No final, nada pode ser feito a não ser estarmos preparados, receptivos à Vida, ao Grande Tao, assim como alguém que ama o vento deixa a janela aberta para que ele possa entrar. Este movimento é natural, deve surgir espontaneamente. Lembre-se, a mutação não vai incidir sobre você ou sobre qualquer coisa, porque, não há o que mudar, não há quem mudar, pois, só há a constante mutação.
 
Karina Paitach
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Publicado no Jornal Alumiar

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