09 junho 2011

Nossa prática deve ser concreta



Um dos insights mais profundos que vocês podem tentar obter é o insight no não-eu. Mas não-eu não é uma teoria, uma doutrina, uma filosofia. Não-eu é só o insight que tem de ser tocado diretamente com sua prática. Como praticantes nós não deveríamos falar sobre o não-eu de um modo que não tenha nada a ver com nossa vida diária. Eu recomendei que todos os amigos que vêm aqui a Plum Village durante este verão aprendam e pratiquem a técnica do Tocar a Terra. Tocando a Terra é uma das muitas práticas que fazemos em Plum Village para tocar a natureza de nosso não-eu. É muito curativa. Cura corpo e mente. Nós deveríamos praticá-la diariamente.

Vocês seguram suas mãos assim [palmas junto na frente do tórax] e ficam à frente de algo como uma árvore, ou o céu azul, ou um dente-de-leão, ou uma estátua do Buda. Curvam-se - porque tudo tem o Buda em seu interior, tem a última dimensão interna - para qualquer coisa curvar-se é bom, para a lua, para a estrela matutina. Vocês produzem sua verdadeira presença, e estão lá com cem por cento de vocês. Então se curvam e tocam a terra.

Toquem a terra com seus pés, com seus braços, com suas frontes. Toquem profundamente, não façam isto pela metade. Porque este é um ato de rendição. Render-se o quê e render-se à quê? Este é o ato de fazer-se render o ego, a idéia de ego. Pois vocês pensam que são uma entidade separada, e esta é a causa básica de seus sofrimentos. Quando tocam a terra profundamente - a terra pode ser sua mãe, seu pai, a base do ser, vocês mesmos - vocês se rendem da idéia de que são uma coisa separada. Vocês sorriem e abrem suas palmas. O ato de abrir as palmas assim e olhar dentro de si, significa que eu não sou nada. Não há nada. Minha inteligência - nós somos muito orgulhosos de nossa inteligência- nossos talentos, nossos diplomas, nossa posição na sociedade. Nós podemos ser orgulhosos de muitas coisas que temos ou que somos, mas quando estamos naquela posição sorrimos e sabemos, nós sabemos que todas estas coisas foram abandonadas por nossos antepassados.


Se você tem uma voz bonita, não pense que criou esta voz bonita por si mesmo. Foi transmitida por seus antepassados, seus pais. Se você tem o talento de um pintor, não pense que inventou aquele talento. Foi transmitido a você como uma semente. Assim tudo o que você pense que é veio do cosmo, de seus antepassados. Portanto durante o primeiro tocar a terra vocês se unem com o cosmo. A água em vocês, o calor em vocês, o ar em vocês, a terra em vocês. Pertençam à água exterior, a terra exterior. Sem a floresta como vocês poderiam existir? Sem seus pais e mães como poderiam estar aí, neste momento?

Então vocês dizem, em sabedoria, que não são nada. Tudo o que vocês pensam, imaginam que sejam, receberam do cosmo, de seus pais - inclusive seu corpo. De repente o não-eu surge como um insight. Vocês pertencem ao fluxo da vida. Se vocês nutrem algum ódio por seus pais, pensam que sua vida foi arruinada por seu pai e que não querem ter qualquer coisa a ver com ele. É muita ignorância pensar assim. Porque se você toca a realidade do não-eu, vê muito claramente que você é o seu pai. Você é exatamente uma continuação de seu pai, e seu pai é uma continuação de seu avô.

Nós somos unos no fluxo da vida. Pensar que você é uma entidade separada, que é um ego que pode ser independente de seu pai, é uma coisa muito engraçada. Porque o seu pai está dentro de vocês, vocês nunca podem se libertar dele. Não há nenhuma alternativa exceto se reconciliarem com seu pai. Reconciliarem-se com ele significa reconciliarem-se com si mesmos. Vocês têm uma chance para realizar isso agora na prática. A outra pessoa pode não ser seu pai, pode ser seu irmão ou seu cônjuge ou qualquer um. Vocês pensam que ele ou ela lhe fizeram sofrer tanto, tornaram miserável sua vida. Há um anseio em vocês de nunca mais o ver novamente, ter notícias dele ou dela novamente.

Este tipo de vontade, este tipo de sentimento nasce de sua ignorância da realidade do não-eu. Porque nós estamos todos unidos. Não só estamos unidos, nós estamos dentro um do outro, nós nos integramos. Assim durante o primeiro ato de Tocar a Terra vocês se rendem à idéia do ego, e de repente liberam muito sofrimento, muita raiva. Vocês dão uma chance para a compaixão e o entendimento nascerem em seus corações.

Quando vocês fazem uma reverência assim não estão invocando um deus para vir e salvá-los, salvar seus egos. Mas realmente é uma prática de sabedoria. Vocês tocam a terra para libertarem-se, abandonar sua noção de ego e adquirir o "insight" de que pertencem ao mesmo fluxo de vida, realidade. De repente vocês vêem que é possível fazer a paz com aquela pessoa. Fazer a paz com ela significa fazer a paz com vocês mesmos. Estranho, porque minha paz depende muito da paz dele ou dela. Se dedicar tempo, energia a ajudá-la a sofrer menos, de repente eu tenho mais paz e mais felicidade. Eu não tenho a intenção de ajudar a mim mesmo, mas sou eu quem obtém todos os resultados.

Quando você vê um inseto pequeno em perigo, gasta meio minuto para salvar o inseto. Você pensa que está fazendo isto para benefício dele, a despeito de sua compaixão. Mas enquanto faz isto cultiva a compaixão dentro de si e a felicidade se torna sua. O que significa para ser compassivo? Para mim, ser compassivo significa poder se relacionar com outros seres vivos. Quando você puder se relacionar com outros seres vivos, sua solidão, seu sentimento de separação, desaparecerá.

Assim, a compaixão é para quem? Para estes seres vivos ou para você? A resposta é: para ambos. Qualquer palavra, qualquer pensamento, qualquer ato, nascido daquele "insight" do não-eu, traz cura e reconciliação para dentro de você e ao seu redor. Há amigos que praticaram as Cinco Prosternações e os Três Toques da Terra e informaram que a prática é muito efetiva. Esses que praticam apenas por uma hora adquirem um grande alívio, e continuam chorando e chorando durante a primeira hora de prática. Vocês já sabem quando praticam deste modo não estão invocando, chamando um deus para ajudá-los, mas sim tocando a realidade. Vocês tocam a compreensão. Vocês tocam o prajña que pode libertá-los. Assim o ato de parar, descansar é para a cura. Olhar profundamente, tocar o "insight" do não-eu também é para cura, para liberação. Esta é a essência da meditação budista.

Você está interessado em perceber a natureza do Buda, o sofrimento dele e sua iluminação? Mas, aquela natureza do Buda, aquele sofrimento dele, aquela iluminação, tem qualquer coisa a ver com seu sofrimento, sua enfermidade? Eu não me interessaria pela natureza do Buda, sua iluminação e seu despertar, se estes nada tivessem a ver com meu sofrimento, minha liberação. Eu só faço as práticas que podem me ajudar a descansar, para curar e liberar a mim mesmo.

Nossa prática deveria ser concreta, efetiva. Nós não deveríamos permitir uma prática seguir por muito tempo sem trazer qualquer alívio para nós, qualquer transformação. Isso não seria um modo inteligente de praticar. Quando o fazendeiro, depois de ter usado um certo tipo de sementes ou fertilizante, ou métodos de agricultura, não adquire os resultados que quer, ele deveria ser inteligente o bastante para saber mudar. Meditadores têm que fazer o mesmo.

Tendo tentado um certo método durante algum tempo que eles não sentem qualquer mudança, qualquer transformação, deveriam inquirir novamente. Eles deveriam aprender novamente dos seus professores, seus irmãos no Dharma, as irmãs no Dharma para adquirir os métodos certos. De acordo com o Buda o Dharma é diretamente efetivo, se você obtém o Dharma certo, como a respiração atenta, por exemplo. No momento em que vocês começam a inspirar atentamente adquirem o resultado de uma prática. Vocês obtêm a concentração. Vocês obtêm uma pausa. Qual a utilidade de se inspirar assim se não podem parar e descansar? Se vocês não se sentem mais concentrados, por que se incomodar? Sofrer por causa da prática de inspirar e expirar é tolice. Assim se estão inspirando e expirando, e se sentem concentrados, tranqüilos, relaxados e produzindo sua verdadeira presença, saberão que a prática está correta e vocês desfrutam os méritos da prática.

Meditação caminhando: Por que nós temos que caminhar lentamente assim? Por que vocês devem se conter reduzindo a velocidade desta forma? Não parece natural. No princípio, pessoas ao redor do centro de prática sempre dizem, " Eles não parecem morar no mundo real. Eles gostam de viver em um sonho, eles caminham tão lentamente." Essa é uma primeira impressão porque no mundo as pessoas sempre correm. Elas não sabem a arte de parar. Elas não sabem a arte de viver cada momento de suas vidas profundamente.

Assim quando elas vêem uma monja ou monge, ou um pessoa leiga caminhando, contemplando, sorrindo assim, não sentem isto como normal. Elas sentem como algo anormal. Há uma aldeã em New Hamlet, e ela disse que ficou muito, muito surpresa e chocada quando viu uma monja que caminhava lentamente e que parou para olhar o lixo. Qual a utilidade se olhar o lixo daquela forma por tanto tempo? O que é normal e o que é anormal? Há pessoas que demonstraram que depois de algumas horas ou alguns dias em Plum Village, começaram a gostar da prática. Porque pela primeira vez elas souberam parar. Poder parar é uma coisa maravilhosa, porque estas pessoas podem ter estado correndo durante os últimos 3.000 anos...

(Dharma Talk de Thich Nhat Hanh em Plum Village em13 de julho de 1996).
(Traduzido por Cláudio Miklos)

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