18 agosto 2011

Parte XV: Esse assunto de chimpanzés não sai da minha cabeça...


Li este post e achei muito interessante, forte, provocativo... e vocês o que acharam? até mais K
Link da reportagem
Foto: Reprodução
Parte XV: Esse assunto de chimpanzés não sai da minha cabeça...
'Diga, óh chimpanzé neocortical, o que aconteceria se faltasse luz na sua casa por uma semana? E se a internet falhasse?'

    *Por Fábio Dal Molin

    Pense, invisível...
    Onde estão as palavras que você está lendo agora?
    Vamos lá, responda!

    Eu sei que há apenas alguns milhares de anos você era um chimpanzé peludo que fazia quase tudo o que faz hoje, menos falar e usar a internet, e louvo seus esforços de pressionar a natureza a dar-lhe a capacidade de falar, ler e escrever.Então, responda!

    Eu já sei que, se você está lendo este texto, sua mente está pensando em português, certo? É verdade, caro chimpanzé sem pelos, que posso adivinhar o que você está pensando, pois os seus pensamentos também são meus. Então, novamente, onde estão as palavras deste texto, mostre-me, se for capaz, faça valer o que seus ancestrais se sacrificaram para deixar-lhe de herança.

    Elas estão impressas no papel?
    Ora, vamos... não me faça rir, criaturinha óbvia. Você têm bilhões de neurônios, use pelo menos algumas dúzias.
    Elas estão na sua mente?
    Eu já disse que não, preste atenção, macaquinho! Ou melhor, eu já disse que sim?... Sim ou não...

    Seria muito difícil pensar que a resposta para esta pergunta simples pode ser ao mesmo tempo “sim e não”? Sem esta maravilhosa máquina hipercomplexa decodificadora e produtora de informação jamais seríamos capazes de fazer qualquer tarefa da vida cotidiana, mas também, sem as tarefas da vida cotidiana nossa máquina hipercomplexa não é nada além de uma massa de proteínas.

    Sim, caro macaquinho, se você pensa que seus pensamentos são só seus, e que a sua individualidade é sagrada, imagine que você está nu em uma recepção no Palácio do Alvorada, e todos os ministros estão olhando para você e dando risada. Agora, imagine: Você só sabe o que é uma maçã, por exemplo, porque grande parte dos seus colegas de espécie também sabe, no entanto, a maçã que você enxerga é sua, só sua, singular e insubstituível, só você pode vê-la, e mais ninguém. Mas como? Pois é, a coisa complicou...

    E se eu dissesse que aquilo que nós estudamos para o vestibular sobre as áreas do cérebro é uma verdade parcial (nota: é engraçada esta idéia de um cérebro estudar ele mesmo, né?). Mesmo que cada área fique responsável por uma função, no momento que, por exemplo, observamos uma maçã, todas elas começam a funcionar ao mesmo tempo: volume, cor, cheiro, forma, torta de maçã da vovó, Adão e Eva, Serpente... A maçã se cruza com memórias, percepções interações, linguagens associações... Não são seus olhos que vêem a maçã, eles só captam a luz emitida por ela.
     80% da maçã não está em lugar nenhum, nem exclusivamente “dentro” da nossa cabeça.
    A maçã está no mundo assim como o mundo está nos nossos cérebros, e como não existem pessoas sozinhas, a maçã, na verdade, é uma pasta de percepções, coletivas/individuais, que surge no momento em que é evocada. Assim, a rede neuronal dentro do seu crânio, caro macaquinho, que, por mistérios desconhecidos, organiza-se de forma a que você possa dizer “eu”, ela está em rede com outras redes neuronais. E por que meios? Infinitos.

    O seu corpo, senhor símio, só sobrevive se puder interagir com outros corpos, formar sistemas comunicativos. Como este computador no qual estou teclando, por exemplo. Além de depender do nosso cérebro para concebê-lo e utilizá-lo, o computador movimenta uma massa impressionante de máquinas vivas humanas para fabricá-lo, dar-lhe energia, vendê-lo, consertá-lo, ligá-lo à internet, imprimir seus arquivos.

    Diga, óh chimpanzé neocortical, o que aconteceria se faltasse luz na sua casa por uma semana? E se a internet falhasse? E se as televisões ficassem todas fora do ar? E se houvesse uma greve geral de todos os serviços?
    Eu já imagino que você diria “seria bom, retornaríamos à natureza”.
    Muito bem, meu caro, sinta-se à vontade para retornar 100.000 anos no passado, andar de quatro, estuprar todas as fêmeas e alimentar-se dos ciprestes da Praça Japão. Nem o ar você conseguiria respirar de novo, seu arrogante, e desça já desta árvore evolutiva de araque.

    Desde que algum de nossos ancestrais usou uma folha para catar formigas ou um fêmur para atacar seu inimigo, o que chamamos de natureza virou uma massa ciborgue indissociável. Somos homens e somos máquinas. Somos, enfim, máquinas vivas, usamos roupas, óculos, rádio, TV, computador, lápis e papel. Não há mais espaço para a ingenuidade, a natureza idílica intocada pelo homo sapiens sapiens (o que sabe que sabe) é um sonho distante. 

    Vivemos em uma máquina-mundo de carne e metal.

    Mas, já que ninguém além de você o chama de humano, seu narcisismo hipócrita vai dizer que mesmo dependendo das máquinas você as domina, ou elas são meros objetos controlados por você, e como macaco evoluído de compostos de carbono, você é “O cara” da natureza... Tudo bem... experimente dar um soco no computador em que você está fazendo sua tese de doutorado, ou seu trabalho de conclusão, ou as lâminas para o seu relatório semestral.
    Lembre-se que a máquina é concebida pela carne, assim como a carne é concebida pela carne...
    Aliás, você também pensa que a inteligência é só sua. Mas o que é inteligência? A capacidade de jogar xadrez? De passar no vestibular? De consertar automóveis? De produzir textos poéticos. Bom, há seres humanos que não fazem nada disso, e muitas máquinas que já fazem quase tudo. Ah, mas você é vivo, afinal você é orgânico, produto legítimo de milênios de evolução. Então vida é isso? Carbono, Hidrogênio, Oxigênio e Nitrogênio misturados e que aos domingos vão almoçar com a família?

    “Mas e o amor”, diria você, ainda não acostumado a usar seu aparelho fonador. Ah, é claro, nós somos os únicos vivos e humanos porque sabemos amar, certo? O amor é a prova cabal da humanidade. Pare e pense: dê uma olhada na sua maravilhosa História, caro chimpanzé, de Hammurabi a George W. Bush, e veja se há mais amor ou guerra, hein?

    Você não tem tempo para pensar, afinal, está ocupado espancando transexuais pelas ruas de Porto Alegre...

    *Psicólogo, Doutor em Sociologia, professor adjunto da Universidade Federal de Rio Grande -FURG- área de Psicologia Escolar e Educacional.   Para ler mais textos do autor, acesse:  Laboratório de Estudos Nomadológicos //Akiles Cronópio 
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