18 novembro 2011

DOR NAS COSTAS


Técnica terapêutica chinesa é reconhecida pelo CFM desde 1995.
Agulhas atuam em canais de energia que percorrem órgãos e vísceras.

Do G1, em São Paulo

A acupuntura é uma prática tradicional chinesa usada há milhares de anos de forma terapêutica, e reconhecida desde 1995 no Brasil como especialidade médica.
Essa técnica de introdução de agulhas em pontos específicos do corpo serve para aliviar dores e tensões, como nas costas, segundo explicou o ortopedista Ivan Rocha.
Segundo o acupunturista e fisiatra Mário Sérgio Vieira, também presente no Bem Estar desta quarta-feira (16), esse método atua nas áreas que concentram terminações nervosas, ou seja, pontos altamente sensíveis.
Acupuntura vale este 1 (Foto: Arte/G1)
De acordo com os médicos, a degeneração da coluna ocorre a partir dos 25 anos de idade.
O repórter Renato Biazzi foi até o Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas em São Paulo para mostrar como pacientes com dor na coluna lombar (lombalgia) se beneficiam da acupuntura, que também é usada contra ansiedade e outras doenças.
Quem pode fazer
A acupuntura contra dor nas costas pode ser indicada por um médico após exames clínicos ou de imagem. Estudos apontam que o tratamento é eficaz contra dores provocadas por hérnias, estresse, excesso de carga ou problemas musculares.
Os principais efeitos são: combate à dor e relaxamento. Apenas 3% dos casos de dor nas costas demandam cirurgia, enquanto 97% são resolvidos com terapias como a acupuntura. Cerca de 10% das pessoas não respondem ao tratamento com agulhas, que devem ser finas, pequenas e sem ponta.
Acupuntura vale este 2 (Foto: Arte/G1)
Contraindicações
Grávidas não podem receber acupuntura em alguns pontos. E indivíduos com distúrbios graves de coagulação não devem adotar a prática.
Tipos de dor nas costas
Primárias
Originárias da própria coluna, como hérnias, infecções, fraturas, degenerações dos discos, tuberculose óssea ou tumores.


Secundárias
Desencadeadas por problemas em outros órgãos, como infecções pulmonares.
Dicas contra dor nas costas
-Evite estresse, cigarro e ficar muitas horas na mesma posição
- Não carregue mais de 10% do seu peso corporal e evite erguer algo sem flexionar os joelhos
-Fortaleça os músculos da coluna com exercícios de musculação, RPG ou pilates, sob orientação de um educador físico ou fisioterapeuta
-Procure um médico antes de começar a acupuntura para aliviar a dor nas costas
Atenção
Dor na coluna após um trauma recente, junto com perda de peso, histórico de câncer, febre e/ou dor noturna em pessoas com mais de 60 anos ou menos de 18 deve ser cuidadosamente investigada, pois pode ser sinal de doenças graves.
Relaxantes musculares não devem ser usados por mais de 30 dias, porque manter a musculatura ao redor da coluna artificialmente relaxada causa o efeito contrário, desestabilizando essa estrutura.

16 novembro 2011

MATA-MATO - continua...

Um dos post mais visitados do meu blog é "A VERDADE SOBRE O MATA-MATO". Eu sempre recebo e-mails de internautas me pedindo mais informações sobre este assunto e por isso decidi colocar esta reportagem...

Obrigada pela atenção de todos - K.

PS.: O post foi retirado do site: http://aspta.org.br/campanha/monsanto-as-sementes-do-poder/Este site tem informações suficiente sobre agrotóxicos e transgênicos, que tiver interesse em obter mais informações eu sugiro este site... http://aspta.org.br e também
http://pratoslimpos.org.br/


Monsanto – As sementes do poder

O filme com legendas em Português pode ser assistido pela internet:

Sementes do poder
Christina Palmeira, de Paris
A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.
Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.
O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.
Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.
A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa
Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.
Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.
A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.
Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).
Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.
Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.
Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.
Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.
Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto [rBGH ou BST]. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.
Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.
A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”.
Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.
Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.
Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.
Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).
De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.
Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.
Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.
A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.
Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardianrevelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.
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atualizado em 06/10/2012

04 novembro 2011

Neurociência para tudo??? NÃO...


Confira a íntegra da entrevista do intelectual britânico Raymmond Tallis, que critica moda entre os cientistas de explicar qualquer aspecto do ser humano apenas lendo ondas cerebrais

por Redação Galileu
Editora Globo
Intelectual britânico Raymmond Tallis// Crédito: Divulgação
Ter preconceito contra o tema é algo do qual ele não pode ser acusado. Além de boa parte das suas quase 200 pesquisas tratar do cérebro, o britânico Raymmond Tallis coordenou a construção do Centro de Neurociência de Manchester e se transformou em especialista mundialmente respeitado em doenças neurológicas de idosos. Apesar disso, ele acha que essa conversa de “neuro” está indo longe demais. Médico, crítico literário e filósofo — e referência na Inglaterra nas três áreas —, Tallis diz que usar a atividade cerebral para explicar todos os aspectos do comportamento humano pode colaborar com um novo tipo de darwinismo social. Em seu livro Aping mankind (“Humanidade primata”, sem edição no Brasil), ele afirma ver riscos na volta da ideia, usada durante o nazismo, de que teorias científicas baseadas no cérebro podem ser usadas para formular leis e conceitos sobre ética.


Por que estamos tentando explicar tudo pela neurociência?
Em parte por causa dos extraordinários avanços da área depois de mais pesquisadores terem acesso a equipamentos de ressonância magnética funcional [que tira “fotografias” da atividade do cérebro]. Eu mesmo fiz minhas contribuições para a neurociência. Só que essa evolução no entendimento do cérebro faz com que as pessoas confundam o fato de a atividade cerebral ser uma condição necessária para a consciência com a noção de que ela em si seria a própria consciência. É o que chamo de neuromania: achar que tudo que somos se deve ao cérebro e que a neuroatividade é a mesma coisa que nossa consciência.

Estamos enxergando a nossa mente como uma simples máquina?
Exatamente. Se passamos a achar que a consciência é apenas fruto de um conjunto de atividades cerebrais, basta compreender esses mecanismos para fazer nós mesmos funcionarmos melhor. Quem tem esse tipo de pensamento acha que a neurociência pode ser usada para fazer políticas sociais. Agora, dizem que não deveríamos nos preocupar com ideologia da direita ou da esquerda, mas com o que o hemisfério direito faz, ou com o que o hemisfério esquerdo coordena.

Mas há cientistas estudando drogas para mudar o comportamento, como a oxitocina. Só posso rir ao ouvir isso. Quando era estudante, a oxitocina era a substância responsável por fazer o útero contrair. Agora, as pessoas viram que ela tem efeito, em alguns roedores, de fazer eles ficarem mais fiéis aos outros. Mas não há a possibilidade de administrar essa droga e transformar todo mundo numa espécie de zumbi moral, isso é bobagem. Se parar para pensar, há um problema maior nas formas mais tradicionais de manipular a mente humana, como o álcool..

O fato de algumas substâncias poderem mudar nossas atitudes coloca em dúvida a noção de livre arbítrio. Pesquisadores dizem ser impossível encontrar evidêncais de que ele existe.
Eu acredito em livre arbítrio e a razão pela qual os neurocientistas não conseguem encontrá-lo é porque têm uma aproximação em terceira pessoa, ou um ponto de vista objetivo sobre isso. Eles nos vêem, inescapavelmente como objetos materiais num mundo material. Não há como ver livre arbítrio dentro disso. Se você retira o ser em primeira pessoa, a liberdade desaparece. Isso traz a questão de também um determinismo cultural. Pensadores sugerem que você só pode ter livre arbítrio se não há influências sobre você, incluindo as influências que vêm do fato que você nasceu de um jeito e não de outro. Você não escolheu ser de um jeito em particular. Na minha visão, o livre arbítrio não vem de três coisas. Uma é que nós somos, em substância, os autores das nossas ações, no sentido que elas não teriam ocorrido sem nós. A segunda, é que essas ações expressam nós mesmos. A terceira é que nós devemos refletir o que as causas de eventos. Se você olha o que criamos coletivamente, nós criamos um mundo inteiro fora da natureza. Você nunca achará o livre arbítrio olhando com os instrumentos errados, que são os instrumentos da neurociência. Se você procurar pelo livre arbítrio no lugar certo, você o encontrará.

Quais são os instrumentos corretos?
Certamente não são scanners cerebrais. Para ver isso, devemos olha para o dia a dia. Se eu caio das escadas, isso claramente não é uma ação de livre-arbítrio como eu falar contigo. Se eu tenho um ataque epilético, isso não é uma ação livre do mesmo jeito que é escrever um livro sobre epilepsia. Nós podemos notar nos eventos que nos cercam que alguns são claramente expressão do mundo físico e biológico e outros são claramente diferentes disso. As minhas ações fazem sentido para mim dentro do tipo de pessoa que eu me tornei e que eu fiz eu mesmo me tornar por décadas. Veja o aprendizado. Eu aprendo me posicionando para adquirir os fatos com minha experiência e expertise. Animais não ensaiam as coisas, não praticam as coisas, não memorizam. Eles não se esforçam para adquirir comportamentos adaptativos. Simplesmente acontece. Isso bem diferente de nós.

O que são as pseudo-disciplinas que você cita em seu livro?
Normalmente essas disciplinas são um híbrido usando “neuro” ou “evolucionário” e alguma coisa. Por exemplo, neurodireito, neuroestética, neurocrítica literária, ética evolucionária, teologia evolucionária. São pseudo porque a neurociência tem muito pouco a dizer sobre o objeto particular de seus estudos. Até quando a neurociência parece ajudar em algo relevante, é prematuro usá-la para tirar conclusões.

Em que situação é prematuro, por exemplo?
Pegue a neurociência usada em crítica literária. Alguns dizem que se realmente queremos entender a resposta de um leitor a um livro, precisamos olhar ao que o cérebro desse leitor faz enquanto ele lê. Você pode expor pessoas a sentenças individuais ou palavras e ver como o cérebro responde, se a palavra ativa áreas relacionadas a qualidades poéticas. Só que, na verdade, ler um livro está longe de ser uma resposta a uma série de estímulos associados com palavras. É se engajar com o mundo que está se abrindo na sua frente, questionar a posição do escritor, imaginar o que está acontecendo, ser um pouco crítico sobre a verossimilhança da história e pensar no que isso poderia te trazer sobre o mundo em geral. O leitor não é apenas um cérebro que está respondendo a algumas sucessões de estímulos discretos, é um ser que está respondendo no nível mais alto a um trabalho de arte extremamente complexo.

Mas e no futuro? Será possível ter uma conclusão só por dar uma olhada em complexos padrões cerebrais?
Quando temos um pensamento, nós conseguiremos um dia ter uma idéia completa detalhada de qual é a atividade cerebral correspondente a um pensamento? Minha opinião é que não. Algumas vezes nesta manhã eu pensei. Ah, vou ter uma conversa com aquele cavalheiro do Brasil. Esse pensamento nunca tomou a mesma forma no meu cérebro duas vezes. Qualquer pensamento tem inúmeras possibilidades de formas de ser realizado dentro da nossa mente. Claramente, não há uma parte da atividade no meu cérebro correspondente a ter uma conversa com você hoje. Mas há uma questão ainda mais profunda nisso. Vamos supor que nós temos a capacidade de fazer estudos no meio da vida real, por exemplo, de alguém se sentindo enciumado por causa a pessoa amada está saindo com alguém. Vamos supor também que nós possamos gravar cada pequena neuroatividade observada nessa situação real. O que temos? Nós temos a descrição de alguns neurônios sendo acionados e alguns não. Nós temos uma gigantesca base de dados de 0 ou 1 disso. Eu não tenho certeza que isso poderia me dizer qualquer coisa sobre o estado de estar apaixonado ou revelar alguma coisa para mim que eu já não soubesse da minha própria experiência ou de ler de experiências de outras pessoas.

Não seríamos capazes de interpretar esses dados?
Não nos levaria a lugar algum. Quebrar o nosso amor em partes que supostamente estariam relacionadas não nos levaria a nenhum lugar no entendimento do que é realmente o amor. É como descrever a minha jornada para um bar encontrar com meus amigos em termos de uma mecânica newtoniana, um monte de movimentos e a energia dispendida. Isso não iria mostrar nada sobre meu prazer em ver os meus amigos no bar.

Esse tipo de pensamento estaria reduzindo a nossa humanidade?
Certamente. Reducionismo está em todo. E a manifestação mais óbvia de reducionismo está em reduzir o mundo ao redor a uma série de estímulos discretos. O que mais me impressiona são nos estudos relacionados ao amor. Sandy Zacki and Ananda Spartels , por exemplo, expuseram voluntários a uma sucessão de fotos com pessoas das quais eles eram amigos. Depois, mostraram a eles fotos de pessoas pelas quais estavam apaixonados. Comparando as respostas dos cérebros aos estímulos, viram o que havia de “a mais” na paixão e concluíram que o amor era uma certa neuroatividade em determinada parte do cérebro. Só que estar apaixonado é muito mais do que responder a um estímulo físico. É algo incrivelmente complicado e o que a neurociência nos oferece sobre isso é apenas algumas sequências de áreas ativadas no cérebro ao se dar um estímulo.

Cresce o risco de determinismo biológico?
Sou ateu e humanista, mas há um trabalho espiritual e intelectual interessante que tem de ser feito para entendermos com profundidade o que somos. É um grande erro achar que, se não viemos de uma força sobrenatural como Deus, somos meramente parte da natureza, como animais. Há o risco de, quando as pessoas começam a falar de neuropolítica, pensarem em neurodireito para substituir procedimentos na corte com justiça biológica baseada em scanners cerebrais. Acho aí que entraríamos em sério perigo.

O dawinismo social está de volta?
É parte da minha preocupação. Essa maneira muito científica de ver a humanidade. A redução do ser humano a ondas cerebrais, me lembra muita da convergência entre o pensamento pavloviano e do socialismo materialista no começo do século 20. A ideia de que nós precisaríamos de engenheiros de seres humanos, de que a ciência iria nos mostrar do que realmente somos feitos e que as nossas políticas seriam baseadas em ciência física real, etc. Esse tipo de cientificismo tem uma história muito triste no passado.

Você também critica o que chama de darwinites. O que é isso?
É a crença de que Darwin não apenas explica como o organismo do homo sapiens se transformou no que é hoje — o que certamente ele faz—, mas que explica também como somos e agimos atualmente. Há muitas pessoas que acham que, por causa de Darwin, temos que negar um abismo imenso que existe entre nós e outros animais. Isso está ligado à neuromania. Se você acredita que a mente é idêntica às ondas cerebrais e acredita que o cérebro é um órgão que evoluiu, então, certamente, acreditará que o nosso modo pensar é apenas moldado pelo evolucionismo. Nossas ações e a forma como agimos, tudo seria a respeito de simplesmente maximizar a passagem de nosso código genético e nada mais. Isso coloca em risco a própria noção de livre arbítrio.

O que você sugere?
Olha, meu livro é bastante negativo. Parafraseando John Locke, meu trabalho é limpar a sujeira do caminho que leva até a verdade. Apesar disso, eu tento apontar no sentido de dizer que nós temos que fazer uma certa reavaliação radical do nosso pensamento, no sentido de pensar sobre o lugar da humanidade e da consciência humana na natureza. E temos de começar nos fazendo questões fundamentais sobre a relação com o material de que somos feitos. Há algo de interesante ocorrendo entre alguns filósofos que tentam escapar da noção de que a mente é a atividade do cérebro. E que o cérebro, como um órgão evoluído, é simplesmente o servente de um processo de evolução. Há algo de bom começando em termos filosóficos nessa área, mas está num estágio muito inicial e precisamos de um gênio para vir e pensar mais profundamente sobre onde nós estamos nessa discussão neste momento. E eu não sou este gênio.
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