26 junho 2013

O Pensamento como um Sistema - Parte 1

PERGUNTA : O pensamento consegue ser consciente de si mesmo?

David Bohm: Essa também é uma pergunta bem sutil. Na superfície, parece que o pensamento não conseguiria ser consciente de si mesmo, se ele for apenas memória. Vamos dizer, então, que precisamos de algum tipo de consciência sobre o que o pensamento está fazendo — isso parece claro — mas é algo que não temos, em termos gerais. Eu usei a palavra "propriocepção" nos seminários anteriores para definir a "autopercepção do pensamento", e vamos retomar isso no decorrer deste seminário. Talvez o pensamento seja consciente de si mesmo. Mas isso nos levaria muito tempo para cobrir além do que já está preparado para está noite, portanto, por enquanto, acho que deveríamos olhar para isso em termos gerais.

Não parece inteiramente impossível abordarmos esta questão de alguma forma, mas é uma questão muito difícil. Eu sugiro que um dos motivos do porquê dessa dificuldade é que há uma falha no processo do pensamento.

O que me refiro como "pensamento" é a coisa toda — o pensamento, o "que foi sentido", o corpo, a sociedade como um todo partilhando pensamentos — tudo não passa de um único processo. É essencial para mim que isso não seja separado, porque tudo não passa de um único processo; o pensamento de alguém se torna meus pensamentos e vice-versa. Portanto, seria um equívoco e um engano separar meu pensamento, seu pensamento, meus sentimentos, estes sentimentos, aqueles sentimentos e assim por diante. Para alguns propósitos está tudo bem, mas não para o propósito que estamos discutindo agora.

Eu diria que o pensamento gera o que geralmente chamamos na linguagem moderna de um sistema. Um sistema é um jogo de coisas ou partes conectadas. Mas, a maneira como as pessoas geralmente usam a palavra hoje em dia significa algo de todas essas partes que são mutuamente interdepententes — não apenas por suas ações mútuas, mas por seus significados e por suas existências.

Uma empresa é organizada como um sistema — possui este departamento, outro departamento e aquele departamento. Eles não têm significado algum separadamente; eles somente conseguem operar juntos. Assim como o corpo também é um sistema — a sociedade é um sistema de alguma forma. E assim vai.

Do mesmo modo, o pensamento é um sistema. Nesse sistema não estão inclusos apenas o pensamento, o que foi sentido e os sentimentos, mas inclui também o estado do corpo; inclui a sociedade como um todo — à medida que o pensamento balança para a frente e para trás em um processo pelo qual vem evoluindo desde a antiguidade.

Um sistema está, constantemente, engajado em um processo de desenvolvimento, mudança, evolução e alterações estruturais, e assim por diante, apesar de haver certas características do sistema que se tornam relativamente fixadas. Chamamos isso de estrutura. Você pode observar que em uma empresa há uma certa estrutura. Às vezes, essa estrutura começa a desmoronar quando não funciona adequadamente, já que as pessoas podem mudar este curso.

Temos também um tipo de estrutura no pensamento — com algumas características relativamente fixas. O pensamento está constantemente evoluindo e com isso não podemos afirmar quando iniciou essa estrutura. Mas, com o crescimento da civilização, ele se desenvolveu muito rápido. Provavelmente, o pensamento era bem mais simples, antes da civilização atual, ao passo que agora se tornou muito complexo, ramificado e com muito mais incoerência do que tinha antes.

Logo, temos esse sistema de pensamento. No entanto, quero afirmar que esse sistema apresenta uma falha — uma falha sistemática. Não é uma falha aqui, ali ou lá, mas é uma falha em todo o sistema. Você consegue visualizar isso? Está em todo lugar e em lugar algum. Você pode dizer: "Eu vejo um problema aqui, então vou trazer meu pensamento para lidar com este problema". Mas, o "meu" pensamento é parte do sistema. Apresenta a mesma falha que a falha que estou tentando consertar, ou uma falha similar.

Nós temos essa falha sistemática, e você pode ver que é isso que vem acontecendo com todos esses problemas no mundo — tais como os problemas que foram criados com a fragmentação das nações. Dizemos: "Aqui está uma falha. Algo deu errado". Mas, ao lidar com isso, utilizamos o mesmo tipo de pensamento fragmentário que gerou o problema, apenas uma versão diferente do mesmo; portanto, isso não ajudará, e pode fazer até com que as coisas piorem. Você pode dizer que consegue enxergar todas essas coisas que estão acontecendo e então se perguntar: "O que eu devo fazer?" Você tenta pensar sobre o assunto, mas no entanto, seu pensamento já foi pervertido por essa falha sistemática. Então, para que serve essa chamada?

Livro : O Pensamento como um Sistema.
Autor : David Bohm

12 março 2013

Psicologia da escassez


“A dinâmica da psicologia da escassez funciona assim: de maneira simultânea à formação do ego individual nasce um senso profundo de falta, uma sensação de separação de tudo o mais na vida. Esse sentido de separação traz um sentimento de contração e um senso de incompletude, que nós tentamos mitigar através de apegos mentais, físicos e emocionais. A necessidade percebida para defender e expandir nossos apegos, por sua vez, cria um sentimento de luta, de esforço. O esforço traz o ressentimento, a ingratidão e retenção, que nos rouba a alegria e impede a energia de fluir livremente em nossas vidas. Isso nos leva pra longe do caminho de nossos destinos natos. Ao invés de seguir nossos próprios caminhos, nós buscamos a aprovação e a atenção dos outros. Esse desejo de aprovação, por sua vez, produz hostilidade e inveja. A inveja, por sua vez, provoca ganância, que agita nossas mentes e nos coloca na louca corrida que chamamos hoje de “corrida de ratos”. Nesse processo, perdemos a capacidade de apreciar os prazeres simples que estão no lazer. No fim das contas, isso nos leva a uma sensação de caos e confusão que ofusca nossa inteligência natural e nos rouba a capacidade de apreciar a beleza da vida.

Por outro lado, a psicologia da abundância flui naturalmente do Tao, do caminho da vida. Movendo-se a partir da unidade do Tao, da eperiência de unidade com toda a vida, recebemos a abundância natural do universo com facilidade em um espirito de gratidão e alegria. Assim, a energia flui livremente em nossas vidas, e realizamos nossos destinos natos. Reconhecer a força inata e a dignidade de toda a vida, vivemos em harmonia com ela e com seus ciclos naturais. Respeitando nossa humanidade acima de qualquer outro objetivo externo ou recompensa, cultivamos um senso de lazer e paz necessário a apreciar a belezame a ordem inerentes da vida, e, assim, nos permitimos expressá-las através do que fazemos.”
Laurence Boldt, em “O Tao da Abundância”
Esse assunto da psicologia da escassez é preciosamente interessante, justamente pelo que o autor americano fala no início do seu texto acima: porque a própria concepção de ego traz embutida uma dimensão de escassez. Essa escassez poderia ser relacionada diretamente ao conceito de “dukkha” que Buddha Guatama fala em suas Nobres Verdades, uma espécie de incompletude, insatisfação, inadequação que contém em si o cerne do sofrimento. Os americanos gostam desse conceito de abundância porque usam para satisfazer seus desejos pessoais de dinheiro, fama, sucesso profissional ou coisas menos associadas ao sentido mais profundo da abundância, que está ligada a uma realidade “nata” em nós e ao nosso redor. Na minha percepção, a abundância que é o tema do parágrafo acima não é exatamente o contrário dualista de escassez, mas uma realidade que se opõe a um engano (a escassez).
Laurence Boldt é um coaching americano autor de livros como “Zen and the Art of Making a Living” e “Zen Soup“. Na bio da Wikipedia definem os temas abordados por ele como um “híbrido de princípios religiosos orientais (Taoísmo, Zen) com o estilo pragmático de resolução de problemas ocidental”. O livro “The Tao of Abundance: Eight Ancient Principles for Abundant Living” é inédito no Brasil.
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FONTE: http://dharmalog.com

05 janeiro 2013

Borderline


Borderline, um transtorno de personalidade no limite das emoções

Retirado do site: http://parceirodasaude.com.br/?p=5058
Fonte: Extra Online
Autora de best-sellers sobre psicopatia, bullying e TOC, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva se volta para um transtorno ainda pouco conhecido no país: o da personalidade borderline. Em seu novo livro, “Corações descontrolados” (Ed. Fontanar), ela conta como  as pessoas que vivem no limite de suas emoções e também como lidar com elas. E dá exemplos: “A Carminha, de Avenida Brasil, é totalmente border”
O nome do seu livro é “Corações descontrolados. Ciúmes, raiva, impulsividade, o jeito borderline de ser”. Que jeito é esse?
Todos nós apresentamos momentos de explosões de raiva, tristeza, impulsividade, teimosia, instabilidade de humor, ciúmes intensos, apego afetivo, desespero, descontrole emocional, medo de rejeição, insatisfação pessoal. E, quase sempre, isso gera transtornos e prejuízos para nós mesmos e/ou para as pessoas ao nosso redor. Porém, quando esses comportamentos se apresentam de forma frequente, intensa e persistente, eles acabam por produzir um padrão existencial marcado por dificuldades de adaptação do indivíduo ao seu ambiente social. Quando isso ocorre, podemos estar diante do transtorno da personalidade borderline. Os borders apresentam hiperatividade emocional, ou seja, é muito sentimento e muita emoção sempre. E costumam lidar muito mal com qualquer tipo de adversidade, especialmente as que envolvem rejeição, desaprovação e/ou abandono. Quando se deparam com  situação dessas, desencadeiam  reação de estresse muito mais intensa e abrangente do que o esperado. E chama-se borderline por isso, porque vivem no limite das emoções.
É o transtorno do amor?
É o transtorno dos afetos. Porque o amor deve ser funcional, positivo. O que o border tem é um afeto disfuncional.
Existe  personalidade borderline e um transtorno de personalidade borderline? Como é isso? Qual a  divisória?
A personalidade é o jeitão de cada um. É a parte biológica somada ao que aprendemos, à . A junção dessas duas partes vai gerar uma série de comportamentos recorrentes, que caracterizam a personalidade de cada um. A personalidade borderline é marcada pela dificuldade nas relações interpessoais, pela baixa autoestima, instabilidade reativa do humor e impulsividade. Quando essas características se apresentam de forma muito disfuncional, nós a chamamos de transtorno.
Tipos diferentes de personalidades, mesmo com traços aparentemente negativos, podem ser requisitos para determinadas atividades, não? Quer dizer, não é qualquer tipo de pessoa que pode ser, por exemplo, um  voluntário, trabalhando em meio à fome na África ou ajudando sobreviventes do terremoto no Haiti.
Só é transtorno quando apresenta problemas sérios para a pessoa, quando é tão disfuncional que a pessoa deixa de ser produtiva. Tirando isso, a personalidade border, ou, como dizemos, o traço border, pode ser muito interessante, se a pessoa não tem ataques de fúria, dependência. Grandes causas sociais, como você mencionou, demandam pessoas com grande capacidade de sentir empatia, com grande sensibilidade e que precisam de um alto grau de aceitação. Uma outra característica comum nessas pessoas é a fluidez na autopercepção. Por isso, pessoas com traço border dão grandes atores. Quando tratamos alguém com o transtorno, temos que ter em mente que, antes de mais nada, essa é uma maneira de ser, uma  estabelecida que não muda. O que buscamos no  é transformar o transtorno em traço: ou seja, a pessoa vai continuar a ser sensível, emotiva, mas ela não vai capotar naquilo, vai canalizar para coisas produtivas.
O quanto do transtorno é biológico e o quanto é fruto do meio? No livro, a maior parte das pessoas com o transtorno teve vidas muito duras, marcadas por abuso sexual, agressão física, abandono. Como se pode dizer que isso é biológico?
Sabemos é que 50% são biológicos e 50% estão relacionados à criação, ao meio, à cultura. Quando a pessoa tem a biologia, mas vive num meio normal, o transtorno vai se apresentar de uma forma muito mais branda ou como traço. A estrutura genética não muda, mas é possível moldar a forma como se apresenta.
Como é a vida de quem tem o transtorno?
A pessoa tem uma dificuldade muito grande nos relacionamentos. Ela tem a autoestima destruída. Se vê muito pior do que é, de maneira depreciativa, e acha que a solução está no outro; é na dependência afetiva do outro que ela busca segurança e legitimidade. E é muito impulsiva. Mas essa impulsividade se manifesta de uma forma muito específica: ela está relacionada a explosões de raiva e ira. O border, como dizemos, é aquela pessoa que, literalmente, fica cega de raiva. Todo mundo que já viveu uma paixão alucinada sabe como é ser border: esse é o jeito border de ser. O estado da paixão, de acordo com a ciência, dura de dois meses a dois anos justamente porque, se durar mais, ninguém aguenta. Mas o border vive .
Trata-se de um transtorno que acomete muito mais mulheres do que homens. A neurociência explica por quê?
Sabemos que 75% dos pacientes são mulheres. Não sabemos exatamente por quê, mas não chega a ser uma grande surpresa se pensarmos que o transtorno está relacionado a uma hiperatividade do sistema límbico, que é o nosso verdadeiro coração, a região do cérebro que regula as emoções. No border, o sistema funciona demais, no extremo das emoções. Nos momentos de maior impulsividade, é como se houvesse uma pane total no sistema, um curto-circuito. Como a questão das emoções já é naturalmente mais marcada para as mulheres, é de se esperar que elas sejam a maior parte dos pacientes. Por outro lado, os homens, com cérebros mais racionais, são a maioria dos que sofrem de transtorno de psicopatia — em que o sistema límbico não funciona ou funciona muito pouco, o que os torna incapazes de ter empatia, de se sensibilizar com o sofrimento dos outros.
A adolescência é uma época em que as emoções já são muito mais intensas. Como é o transtorno nessa fase da vida?
O transtorno surge pela primeira vez nessa fase que é, em geral, quando ocorre o primeiro rompimento ou afeto não correspondido. Essa rejeição desencadeia o curto-circuito. A adolescência é a época das paixões, da impulsividade, da sexualidade, do comportamento de risco. Tudo isso faz parte, o adolescente tem que arriscar para aprender. É uma erupção emocional. No border, no entanto, é uma hemorragia. A automutilação é um comportamento recorrente. E se você perguntar por que ele fez aquilo, vai dizer que é para aliviar a angústia, o vazio.
E alivia mesmo? Por quê?
Sim. Ele se sente muito melhor porque deixa de sentir angústia. Quando há uma ameaça física ao corpo, o sistema de defesa e estresse é acionado. A substância liberada para tamponar a agressão é a endorfina, que é um anestésico. Por isso, um tratamento ótimo é a atividade física intensa, que libera endorfina.
Existe tratamento?
É possível diminuir a hiperatividade do sistema límbico com medicações específicas em doses específicas — muitas vezes mínimas. Com isso, você reduz muito os ataques de fúria, os atos destrutivos, as agressões; baixa a bola do sistema mesmo. Mas, paralelamente, é preciso , uma terapia muito específica, mais direcionada para o presente do que para o passado, que vai treinar a pessoa a viver com menos intensidade, a sangrar menos. A não morrer de hemorragia.
Conheça as características determinantes da personalidade borderline
No livro “Corações descontrolados” (Editora Fontanar), a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva é bem cuidadosa ao enfatizar que o diagnóstico preciso de borderline requer grande experiência, além de atenção e dedicação para perceber “o que os borders escondem, inclusive deles mesmos”. Algumas características, no entanto, são comuns neste diagnóstico, mas é necessária a presença de, no mínimo, cinco delas por um período de pelo menos um ano, em contextos sociais diferentes, para que o diagnóstico possa ser estabelecido.
São elas:
  • Impulsividade potencialmente perigosa em pelo menos duas áreas, como gastos excessivos, promiscuidade, direção perigosa, abuso de drogas ou compulsão alimentar, por exemplo.
  • Ira inapropriada e intensa ou dificuldade de controlá-la.
  • Instabilidade afetiva devido a uma grande reatividade do estado de humor.
  • Ideias paranoides transitórias relacionadas a estresse ou sintomas dissociativos graves.
  • Alteração de identidade: instabilidade acentuada e resistente da autoimagem ou do sentimento do self.
  • Um padrão de relações interpessoais instáveis e intensas.
  • Esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginário.
  • Ameaças, gestos ou comportamentos suicidas recorrentes ou comportamentos de automutilação.
  • Sentimentos crônicos de vazio.
Entre os famosos, a autora cita celebridades com suposto funcionamento borderline, como a cantora Amy Winehouse e seu apego irracional ao marido Blake Fielder-Civil — e as muitas músicas de sucesso que esta relação rendeu —, e a fragilidade do mito Marylin Monroe, exemplificada em tentativas de suicídio, o vício em anfetaminas, álcool e muitos relacionamentos afetivos fugazes. Em comum, sempre há alguma dependência: a um vício, um tipo de situação ou pessoa.
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