18 novembro 2014

24 outubro 2014

Mundo sitiado

Mundo sitiado


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Me apresentar? Sei falar de mim não. Às vezes, vejo assim, como um caleidoscópio de fragmentos muito antigo, sabe? Contíguo num quase total desconhecimento de mim. Às vezes, nem sei se existo mesmo e acho até jamais saberei. Nem sempre sou coisa alguma.
Mais objetivo? Como falar? Muitas vozes, sabe? São muitas vozes entoando falas e todas dizem coisas demais. Mas há um tom maior. Um tom retumbante que afina tudo isso. Um interstício grave assim meio desarmônico, mas que nunca desarranja.
Divagar menos? Bem concretamente, então, imagina o vazio. O vazio vazio mesmo. Às vezes, sinto esse vazio, aqui dentro, sabe? Então existe, não é assim?
Aspiração? Tenho não. Não sei… Queria a centelha do absurdo em mim preservada. Capaz de desabitar o deslugar para morar dentro. Um (descentro), meu vazio vazio esvaziado. Mas quando cai a noite há desassossego nos meus desertos e aí pedra é pedra, cadeira é cadeira, chiclete é chiclete, tudo tal qual deslugar de utilidades. Uma bestidade! Já nem sacis ou curupiras. Nem o homem do saco! Talvez meus desertos estejam empobrecendo de vazio e meus fios perdidos num emaranhado de bordados inúteis. Desvida crescendo sem que eu me dê conta, sabe?
O que é desvida? Como falar? Desvida não é a morte, porque a morte é inerente à vida, não? Acho que a desvida é de plástico, sabe? Uma coisa assim criada prum viver inventado. Explicar mais? Ah, não sei falar… É meio assim, você acha que está vivendo e não está. E não necessariamente está morrendo, sabe? Pra mim? Ah, pra mim seria a morte! E porque não digo morte? É que pra mim o que é morte, noutras bocas se chama vida. Ah, sei falar não, vê?
E como digo que cresce? Não digo! Apenas uma desconfiança. A desvida não é assim não. A gente não se dá conta e, quando vê, já foi, passou o trem, o barco apitou… E você plastifica a vida num documento de identidade, acha que é alguém, vive como alguém que acha que é e meio que já não sabe de si, já não se pergunta mais, sabe?
Eu não soube te responder? Como assim? O quê? Ah, é verdade, sei falar não. Quase um total desconhecimento de mim, eu disse. Mas acho estranho dizer alguém. Num sou ninguém não, sabe? Talvez, muita gente, muitas vozes, muitas cabeças encarnadas num corpo orgânico demais… às vezes, de menos. Sei lá. Mas dizer assim na lata alguém, ah, isso eu não digo!
Onde eu moro? Como assim? Você acha relevante? Talvez o lugar fale menos do que eu agora. Oquei! Você acha que o lugar sempre diz muito. Mas sabe que eu vejo assim? Vejo haver algo de pasteurização no lugar onde eu vivo que, apesar de diferentes, faz com que todos os lugares sejam muito iguais. Cais e cais de pedras! O único lugar possível é dentro, mas tantas vezes tão repleto de foras. Aí dá medo.
Medo? Tenho medo de ficar vivo por mais ou menos tempo. Tenho medo do tempo mais ou menos, sabe? O tempo inútil das utilidades. Tornar-me útil neste tempo menor de agora. Neste tempo reduzido. Neste!
Da morte? Já não tenho mais muito não. Uma realidade com a qual se vive latente ali. Acostuma-se. Poderia ser aqui e agora, não? Já atravessei o Letes tantas vezes! Tenho certeza!!! Dá um frio na espinha, eu acho. Um saber inconsciente, sabe? Mas não é medo. Às vezes, até conforto. Medo só quando se sabe atravessando o Letes como num susto. Quando nem se sabe ainda quem se é. Digo, quando nem há lugar pra desconfiança de não ser coisa alguma, sabe? E nem reminiscência, nem uma gota do Letes sobra ali. E rompem-se os fios. Aí dá medo. Mas meus fios ainda não se romperam. E além do frio na espinha, há sempre o voltar pra casa. Mas a casa é sempre onde se está, não?
A casa? Como falar? Habita-me como numa memória clandestina. Um desatino, meu instinto em desvario. Antes mais raro, hoje cotidiano. Fato é que ao longo dos anos passei a desconfiar se estou de verdade, sabe? Como se o lugar-casa fosse espaço insuficiente para se deixar ser. Um mundo sitiado. Uma rama de fios paralelos confeccionando desvidas, sei lá. Será uma forma de eternizar o mundo? Aí dá medo.
Medo? O mundo sitiado dentro. A casa tomada, sabe? Como se não houvesse casa, não poder voltar, não saber habitar… nem dentro. Ser nada dentro. Aí dá medo. Medo de mim.




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Silvia Nogueira integrou a primeira turma do curso livre de preparação do escritor (clipe, casa das rosas) e participa do coletivo literário palavraria. publicou o livro de contos imagens da rua,poemas em revistas eletrônicas (como a Cronópios e a Germina) e algum de-dizer finando em papel: poesias na plaquete língua mariposa (org. Claudio Daniel); vi-me (agenda CCSP); micropeça transmelhança, jornal GLBTUVXZ (org. Marcelino Freire); participação no livro-livre (org. Reynaldo Damazio). E-mail: silnogueira75@gmail.com

08 outubro 2014

Lucia - Days



Letra - http://letras.mus.br/lucia/days/traducao.html


Hold my breath, hear me out in this forest
Creatures watch as I step on their treasures
Gleaming eyes in the dark, chasing stories
Beg the earth, pay the price for redemption

Never listened when you warned me
Never listened to your thoughts
You were the only one to hold me
Now I'm lost enough to die

For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, I'm hopeless
But, at least, I fought it
For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, I'm hopeless
But, at least, I fought it
For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, we're hopeless
Do you think we lost it?

So I wait for these gates to be opened
Head towards northern lights...
And disappear

Never listened when you warned me
Never listened to your thoughts
You were the only one to hold me
Now I'm lost enough to die

For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, I'm hopeless
But, at least, I fought it

For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, I'm hopeless
But, at least, I fought it

For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, I'm hopeless
But, at least, I fought it

For days that I'm calling you
The light of the day is true
Yes, we're hopeless
Do you think we lost it?

Lucia - Silence

The Cinematic Orchestra Arrival of the Birds & Transformation

Takenobu - Fishin'

29 setembro 2014

BARBRA STREISAND - AVINU MALKEINU (Nosso Pai, Nosso Rei)





10 dias de Transformação - Sem Culpa
Iniciamos em Rosh HaShaná (quinta-feira) mais uma oportunidade cósmica de preparar nosso futuro. Ao longo do mês de Elul, tivemos nosso acesso facilitado aos erros do passado, para não levar ao ano que se inicia uma carga desnecessária de culpas, um peso morto em nosso caminhar nesse ano.
Rosh HaShaná é o dia no qual os Julgamentos afloram, e Iom Kipur é o dia do ano no qual a energia de Misericórdia é mais intensa. São 10 dias nos quais temos uma chance de “limpar” nossas vidas dos erros cometidos, no ano que se inicia..
Uma das coisas que afeta nosso contato com o divino, são as promessas que não cumprimos. Elas criam um vazio (Chala) entre nós e o divino. Segundo Ari HaKadosh, nesse caso nosso arrependimento não se completa, e apenas em Yom Kipur temos a energia necessária para realizar isso.
Por isso, não devemos fazer promessas, a menos que tenhamos a intenção firme de cumpri-las. Não precisamos prometer nada, esse é um ato de nosso Livre Arbítrio, mas se as fizermos, temos de cumpri-las.
O processo de Teshuvá (cuja tradução incompleta seria “arrependimento”) se trata, segundo o Ari, de elevar o segundo Hei do Tetragrama Sagrado (Malchut) até o primeiro Hei (Biná), que fecha o circuito, restabelecendo dessa forma, nosso contato com o Paraíso.
As armadilhas do Julgamento são: Culpa e Castigo, ideias que vieram através da fé cega pelas religiões, pois ambos são inúteis nesse processo. Nosso Entendimento do que ocorreu e a intenção de não repetir o erro são a forma correta de eliminar essas energias de nossa vida.
Então, ao longo desses 10 dias entre Rosh HaShaná e Iom Kipur, usamos ferramentas especiais para realizar a transformação desse Julgamento em Misericórdia, e garantir um ano melhor. Uma delas é ouvir o toque do Shofar; outra é a oração Avinu Malkenu (Nosso Pai, Nosso Rei), que nos ensina a pedir ao Criador coisas específicas. Porque se não as pedirmos, não estaremos aptos a recebe-las, mesmo que as mereçamos.
Para muitos, o ato de pedir é uma barreira, que essa oração nos ajuda a superar..
Essa oração possui belíssimas versões cantadas, e sempre é bom escutá-las nesses dias, enquando escaneamos: https://www.youtube.com/watch?v=0YONAP39jVE
Outra ferramenta que os cabalistas nos oferecem é um dos 72 Nomes Sagrados:
Hei, CHet, Shin (Sem Culpa)
Meditar sobre esse nome nos faz recordar as ações negativas do passado, sentindo a dor que causamos aos outros. Sempre é bom lembrar que fomos apenas os mensageiros daquilo que a pessoa precisava passar, não os causadores; se não fôssemos nós, teria sido outra pessoa, outra pessoa, Fomos o canal que trouxe até eles a chance de transformação.
Com esse nome, temos a chance de pedir à Luz que retiremos todos os nossos atributos negativos. A força chamada arrependimento repara espiritualmente nossos erros do passado e diminui o lado escuro de nossa natureza.
Também favorece a meditação, a consciência e a inteligência espiritual

Poesia - Barba Azul (por Mariza Ruiz)


Chegou-te
o homem
de barbas
azuladas
com melífluas

palavras
seu coche
enfeitado.
Veio de tão longe.
Veio de estocada.
Ofereceu-te tanto,
nem desconfiaste!
Chegou-te o homem
de olhos negros,
e te fitou intenso,
capturou-te o ventre,
escureceu tua alma.
Veio sem aviso,
veio de repente.
Chegou-te o homem
com quem jamais
sonharas,
escondido jazia,
onde não pensaras.
Veio tão pujante.
Veio tão potente,
esmiuçou teu corpo,
amoleceu-te a alma.
Chegou-te o homem
e te deu mil chaves,
todas do castelo,
onde te mantinha,
silenciosa e calma.
Podias, disse ele,
abri-las pouco a pouco,
olhá-las com afinco,
gozar de seus tesouros.
Apenas proibida,
uma chave pequenina,
jamais poderia
ser desvirginada
a fechadura.
Abriste os aposentos,
abriste quarto a quarto
e viste o que querias,
e muito aproveitaste.
Pequena chave
queimava-te
por dentro,
que terrível segredo
a pequenina porta
encerrava?
Por que não desvirginá-la?
E fostes devagar,
foste amedrontada,
foste com cuidado,
abriste o pequenino
quarto.
Com o terror
te deparaste,
cabeças de mulheres
decepadas por toda
parte.
Trancaste a porta
tão pequena
e contemplaste
a chave:
chorava sangue
e não estancava
as lágrimas.
Tu te apavoraste:
o que dizer ao homem
quando voltasse?
A chave só chorava,
emoções tão guardadas,
e a alma pouco a pouco,
perdia as amarras.
Teus aliados internos
convocavas.
Tuas forças mais profundas
se aprumavam.
Quando mais sangue chorado
mais crescias,
mais te preparavas.
Chegou-te o homem
e não lhe tinhas medo
embora soubesses:
perigo representava
A ele todas as chaves
devolveste
menos a do quarto
terrível onde
as emoções
ficaram por tanto
tempo guardadas.
O homem enfureceu-se
disse: vou matar-te.
Pediste apenas tempo,
de novo as forças
internas convocaste:
teu animus saudável,
tua anima aliada
e, então te apresentaste.
Chego-te agora, homem
e não podes fazer-me nada.
sacas-te tua espada
e olhando-o bem nos olhos
tu o decepaste.


MARIZA RUIZ

25 julho 2014

Inspiração Profunda - RILKE

Cartas a um jovem poeta
(Primeira carta)



Rainer Maria Rilke


Paris, 17 de fevereiro de 1903
Fonte de onde foi extraído o texto:
 http://www.releituras.com/rilke_menu.asp

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,






Rainer Maria Rilke
 nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas.

Em Paris, em 1902, 
Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.

Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.

Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. 
Rilkemorreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça).

Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América.

Texto extraído do livro "Cartas a um jovem poeta", tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.

Receitas para o Inverno!!!!

Inverno, calor & vida

Fonte: http://www.soniahirsch.com/

Inverno: sol lá fora, mas cá na sombra uma brisa geladinha, e haja gengibre para esquentar!
De manhã, chá de gengibre com hortelã: além de ser deliciosa, essa combinação neutraliza toxinas, acalma o fígado, tonifica os rins e regula o fluxo de energia vital.
Meio-dia, um bom pedaço de gengibre na panela de pressão, junto com o grão-de-bico deixado de molho na véspera, mais um raminho de tomilho, sal no final, caldo grosso, azeite ao apagar o fogo: é de comer gemendo, ainda mais num cozido light onde não faltem abóbora, batata-doce, banana-da-terra, alho-poró, couve, repolho, cebola inteira, cenoura.
À noite, é claro, sopa. De qualquer coisa, mas com um pouquinho de sumo de gengibre ralado e espremido, para expulsar o frio e evitar gripes e resfriados.
Muita gente aprendeu a comer gengibre em
restaurante japonês, acompanhando peixe cru.
Ele traz um calor que compensa a natureza fria do peixe.
Porque o estômago, como se sabe, é quentinho; todo o
nosso corpo é quentinho por dentro. Quando entra uma
comida fria, o nosso sistema de aquecimento precisa
trabalhar mais para fazê-la chegar à temperatura em que
o estômago pode digerir. Acontece que a grande fonte de
energia corporal é justamente a comida quente: além
de alimentar, ela doa um calor precioso. E fria, rouba calor.
Essa história de natureza da comida vem
dos chineses, que há milênios observam
os fenômenos do universo. Eles mostram,
por exemplo, que as frutas são quase todas
de natureza fria ou fresca, não vão aquecer
ninguém – a menos que sejam cozidas
ou assadas com aditivos quentes, como
cravo e canela.
Cravo esquenta o estômago, os rins, joelhos e a região
lombar. Canela dispersa o frio do abdômen. Chupar
qualquer um dos dois já começa a aquecer por dentro.
Calor é essencial à vida, e vida se faz a cada momento.
Metade do efeito dos chás medicinais vem da água quente.
Mas nem todo chá esquenta. O preto, puro
ou aromatizado com jasmim, bergamota, pêssego,
maracujá e outras essências, esfria o corpo assim que a
água esfriar – tanto que os ingleses começaram a usá-lo
na Índia justamente para refrescar. Mesmo quente,
faz suar e o suor refresca a pele, que refresca o interior
do corpo. Quem não abre mão do chá preto no inverno
pode temperá-lo com cravo, canela, gengibre, cardamomo
(outra sementinha picante, aromática e deliciosa),
casca de laranja e até pimenta.
Outros alimentos que ajudam a produzir calor:
abóbora, alho-poró, cenoura, cebola, cebolinha verde
(todos lá dentro do cozido), arroz, carnes de coelho
e galinha, rim, mexilhão, cevada, painço, leite de coco,
extrato de malte, chalota (aquela cebola mais comprida
que redonda). Lichia, maçã, pêssego e uva são das poucas
frutas que não esfriam o corpo.
Pés e mãos frios podem ser resultado
de uma alimentação com pouco calor,
que torna a digestão mais difícil.
Este é o grande inconveniente de comida congelada
e aquecida no forno de micro-ondas – os alimentos retêm
a natureza do frio, e o reaquecimento proporcionado pelas
ondinhas não é profundo. Se não houver outro jeito,
compense tomando uma sopinha antes e um chazinho
depois. A sopa pode ser só um caldinho de missô
(massa de soja salgada e fermentada), basta dissolver
uma colher de chá de missô em uma caneca de água
bem quente, cebolinha picada por cima e, claro,
muitas gotinhas de gengibre ralado e espremido.

E quem não gosta de gengibre também não
morre de frio: enrola uma faixa de crepe nos quadris,
por baixo da roupa, e ganha um calor secreto
que apruma qualquer friorento

17 julho 2014

Descoberta música da vida


Acabam de ser identificados movimentos críticos para a vida humana, minúsculas vibrações, que ocorrem nas proteínas.
Tais como as cordas de um violino ou os tubos de um órgão, as proteínas no corpo humano vibram em diferentes padrões. Mas, até hoje, não se sabia se essas vibrações tinham alguma função.
Pesquisadores afirmam ter obtido agora a primeira evidência conclusiva da existência dessa "música da vida" e de sua função na manutenção dos processos biológicos
Música da vida é tocada por proteínasUsando uma técnica chamada microscopia de campo próximo terahertz, cientistas da Universidade de Buffalo e do Centro Médico Hauptman-Woodward (EUA) observaram pela primeira vez em detalhes as vibrações da lisozima, uma proteína antibacteriana descoberta por Alexander Fleming em 1922.
Minúsculas vibrações nas proteínas, parecidas com o toque de um sino, são movimentos críticos para a vida humana. [Imagem: Andrea Markelz/Katherine Niessen]
Música da vida
As vibrações, que se acreditava serem aleatórias e dissiparem rapidamente, na verdade persistem nas moléculas como o "toque de um sino", compara Andrea Markelz, líder do trabalho.
Estes pequenos movimentos permitem que as proteínas mudem de forma rapidamente, de modo que possam ligar-se facilmente a outras proteínas, um processo que é necessário para que o corpo execute funções biológicas críticas, como a absorção de oxigênio, a reparação de células e a replicação do DNA.
A pesquisa abre as portas para uma maneira totalmente nova de estudar os processos celulares básicos que garantem e sustentam a vida.
Para observar as vibrações das proteínas, a equipe contou com uma característica interessante dessas moléculas essenciais: o fato de que elas vibram na mesma frequência que a luz que elas absorvem.
"O sistema celular é simplesmente fantástico. Você pode pensar em uma célula como uma pequena máquina que faz um monte de coisas diferentes - ela detecta, faz mais dela mesma, ela lê e replica o DNA e, para que todas essas coisas ocorram, as proteínas precisam vibrar para interagir umas com as outras," explica Markelz.
O estudo foi publicado na revista Nature Communications.

Ludovico Einaudi - Melodia Africana III

15 julho 2014

GOLFINHOS - Pessoas não-humanas

Cientistas querem classificar os golfinhos como “pessoas não-humanas” por sua grande inteligência


Os golfinhos são tão inteligentes que devemos encará-los como pessoas não-humanas, é o que reivindica um projeto de lei.
Uma coalizão de cientistas, filósofos e grupos dos direitos dos animais estão declarando, oficialmente, que os golfinhos não podem ser classificados como simples criaturas. Um dos tópicos do projeto é impedir que eles sejam mantidos em cativeiro em parques aquáticos e severas leis contra pescadores que os atacarem.
As chamadas “baleias” assassinas também seriam classificadas da mesma forma, já que elas são golfinhos e não baleias, como boa parte da população pensa.
Outro fator importante é que as baleias também entrariam nesta lista, o que oficialmente transformaria os pescadores baleeiros em assassinos, de acordo com a Associação Americana para o Avanço da Ciência, na conferência anual que ocorreu em Vancouver, Canadá. Grandes empresas como as petrolíferas teriam que ter mais rigor ao explorar uma região com grande fluxo de golfinhos e baleias, buscando respeitá-los.
O filósofo Thomas White comentou: “A evidência científica agora é forte o suficiente para apoiar a alegação de que os golfinhos são como os seres humanos, auto-conhecedores, seres inteligentes, com emoções e personalidades. Assim, os golfinhos devem ser considerados como pessoas não-humanas, sendo valorizados como indivíduos. Do ponto de vista ético, as lesões, mortes e cativeiro é algo errado”.
O projeto de lei afirma que todos os membros da ordem dos cetáceos – baleias, golfinhos e botos – tem o direito à vida. Ele também diz que ninguém tem o direito de possuir uma criatura dessas ou fazer coisas que agridam seus direitos, liberdade e normas.
Quando a comparação é tomada pelo cérebro, os golfinhos possuem o segundo maior cérebro do reino animal comparado com seu peso corporal, ficando atrás apenas dos seres humanos. A conferência provou que os golfinhos são autoconscientes, podendo se reconhecer ao olhar no espelho.
Algumas provas científicas sobre a inteligência dos golfinhos:

1 – Quando dada a oportunidade, os golfinhos assistem TV e seguem as instruções apresentadas na tela.
2 – Os golfinhos podem ser ensinados a entender as palavras humanas, frases e demandas.1 – Quando dada a oportunidade, os golfinhos assistem TV e seguem as instruções apresentadas na tela.
3 – Como os seres humanos, os golfinhos são altruístas e há exemplos que mostram que eles ajudam banhistas que foram atacados por tubarões.
4 – Eles usam linguagem corporal. Pular, saltando fora da água e desembarcando ao lado de outro golfinho, significa “eu quero ir agora!”.
5 – Eles têm sotaques regionais. Um apito dado por um golfinho do País de Gales é completamente diferente de outro que vive na costa da Irlanda.
6 – Eles têm uma forma de diabetes quando adultos, mas eles são capazes de “ligar ou desligar” a doença. Aprender como esse processo funciona poderia ser a chave para a cura em nós humanos.
7 – Os machos atraem as fêmeas apresentando buquês de plantas daninhas, pedaços de madeira e detritos marinhos, como uma forma de cortejar.

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OUTRAS NOTÍCIAS


AVANÇO

Golfinhos passam a ser considerados pessoas não humanas na Índia

25 de outubro de 2013 às 12:40

A Índia é o primeiro país do mundo a ter um novo tipo de pessoas: os golfinhos. Terça-feira (22), o Governo assinou a Declaração dos Direitos dos Cetáceos (DDC), concedendo aos golfinhos uma personalidade não humana. Entre os sete pontos da DDC salienta-se o quarto: “nenhum cetáceo é propriedade de um Estado, corporação, grupo ou indivíduo”.
A Índia é, desde anteontem, um país onde os golfinhos são pessoas. A “inteligência e sensibilidade” destes cetáceos são os motivos invocados pelo Ministério da Ambiente para a adesão à Declaração dos Direitos dos Cetáceos.
A Índia é, desde anteontem, um país onde os golfinhos são pessoas. A “inteligência e sensibilidade” destes cetáceos são os motivos invocados pelo Ministério da Ambiente para a adesão à Declaração dos Direitos dos Cetáceos.
“Os cetáceos em geral são extremamente inteligentes e muito sensíveis. Vários cientistas que investigam o comportamento dos golfinhos sugerem que têm uma inteligência invulgarmente desenvolvida. Os golfinhos devem ser entendidos como ‘pessoas não humanas’ e como tal devem ter direitos próprios, sendo moralmente inaceitável mantê-los em cativeiro para fins de entretenimento”, refere o comunicado emitido pelo Ministério do Ambiente e das Florestas da Índia.
Com esta decisão, a Índia – país que concentra quase um sexto da população humana – “dá um passo decisivo para a afirmação do estatuto dos golfinhos”, ressalva a organização Whale and Dolphin Conservation, o grupo ativista que tem promovido a DCC, em comunicado: “é importante e gratificante haver um Estado que reconhece a personalidade dos cetáceos e um passo para que, eventualmente, termine o cativeiro e a exploração dos golfinhos”.
A decisão abre, contudo, um problema jurídico. A Índia reconhece a personalidade não humana dos golfinhos, mas ignora o estatuto de outros cetáceos, como as baleias. A posição mais firme na defesa das baleias foi tomada pela Austrália, que intentou um processo contra o Japão, no Tribunal Internacional de Justiça, pela matança destes cetáceos ao abrigo de um programa alegadamente “científico”.
Os fins invocados pelo Governo nipónico tem permitido à frota baleeira japonesa ignorar a moratória da pesca comercial, em vigor desde 1986. A decisão da Austrália, no entender dos especialistas, foi baseada na pressão da opinião pública. Para os australianos, as pessoas humanas têm “o dever de proteger” as baleias mesmo que não sejam das que migram nos mares do país.
A decisão da Índia antecipa ainda a conferência “Personalidade para além dos Humanos”, agendada para dezembro. Nesse encontro será discutida a atribuição de personalidade a animais como os cetáceos, os grandes macacos e os elefantes, assim como os critérios e noções que sustentem essa personalidade em campos como o direito, a ciência comportamental, a ética e a filosofia.
A DCC reconhece a todos os cetáceos sete direitos: o direito individual à vida, a não ser sujeito a cativeiro, servidão, maus-tratos ou despejo do ambiente natural, à liberdade de movimentos e de residência no ambiente natural, a não ser propriedade de um Estado, corporação, grupo ou indivíduo, a proteger o meio ambiente, a não terem alterações forçadas no modo de vida e a terem todos estes direitos, normas e liberdades garantidos pelas leis próprias de cada Estado e internacional.
*Esta notícia foi escrita, originalmente, em português europeu e foi mantida em seus padrões linguísticos e ortográficos, em respeito a nossos leitores
Fonte: PT Jornal

Ludovico Einaudi - Primavera





Lindíssima essa música!!!


09 março 2014

A menininha dos fósforos


A concentração e o moinho da fantasia

Na América do Norte, o conto intitulado "A menininha dos fósforos" é mais
conhecido na versão de Hans Christian Andersen. Ele descreve as conseqüências da
falta de alimento e da falta de concentração. Trata-se de uma história muito antiga,
contada pelo mundo afora, em versões diferentes. Às vezes ela fala de um carvoeiro
que usa seus últimos carvões para se aquecer enquanto sonha com tempos passados.
Em algumas versões, o símbolo dos fósforos é transformado em algum outro objeto,
como na história do pequeno florista, que descreve um homem magoado que
contempla fixamente o centro das suas últimas flores até desaparecer para sempre.
Embora haja quem dê uma interpretação superficial a essas histórias e declare
que não passam de histórias piegas, querendo dizer que elas têm excessivo apelo
emocional, seria um erro ignorá-las sem lhes dedicar maior atenção. Em sua
essência, esses contos são profundas expressões da psique, a qual pode vir a ser
hipnotizada negativamente a um tal ponto que a vida real e vibrante começa a
"morrer" em espírito.
A primeira vez que ouvi essa versão de '’A menininha dos fósforos" foi da
minha tia Katerina, que veio para os Estados Unidos depois da Segunda Guerra
Mundial. Durante a guerra, sua humilde aldeia de lavradores da Hungria havia sido
dominada e ocupada por três nações hostis. Ela sempre começava a história dizendo
que sonhos agradáveis sob circunstâncias difíceis não fazem bem; que nos tempos
árduos precisamos ter sonhos fortes, reais, sonhos que possam se realizar se
trabalharmos com afinco e bebermos nosso leite à saúde da Virgem.

A menininha dos fósforos

Era uma vez uma menininha que não tinha nem pai nem mãe e que morava na
floresta negra. Havia nas proximidades da floresta uma aldeia, e ela havia aprendido
que podia comprar lá fósforos por meio pêni que podiam ser vendidos na rua por um
pêni inteiro. Se ela vendesse fósforos em quantidade suficiente, poderia comprar uma
fatia de pão, voltar para sua meia-água na floresta e ali dormir com as únicas roupas
que possuía.
Chegou o vento, e ficou muito frio. Ela não tinha sapatos, e seu casaco era tão
fino que chegava a ser transparente. Seus pés há muito haviam passado do ponto de
estar azuis de frio. Seus dedos dos pés estavam brancos, assim como os dedos das
mãos e a ponta do nariz. Ela perambulava pelas ruas, implorando a desconhecidos
que comprassem fósforos dela. Mas ninguém parava e ninguém prestava a mínima
atenção a ela.
Por isso, uma noite ela se sentou dizendo para si mesma que tinha fósforos e
que podia acender uma fogueira para se aquecer. Só que ela não tinha nem gravetos
nem lenha. Resolveu acender os fósforos assim mesmo.
Ela se sentou com as pernas esticadas para a frente e acendeu o primeiro
fósforo. Ao fazê-lo, pareceu-lhe que o frio e a neve desapareciam por completo. O que
ela viu no lugar da neve rodopiante foi uma sala, uma linda sala com um enorme
fogão de cerâmica verde-escuro, com uma porta de ferro trabalhado em arabescos.
Tanto calor emanava do fogão que o ar chegava a ondular. Ela se aconchegou junto a
ele e se sentiu no paraíso
De repente, porém, o fogão se apagou, e ela estava mais uma vez sentada na
neve, tremendo tanto que os ossos do seu rosto retiniam. E assim ela acendeu o
segundo fósforo. A luz iluminou a parede do edifício ao lado de onde ela estava
sentada, e ela subitamente pôde ver através da parede. Na sala por trás da parede,
havia uma toalha alvíssima sobre a mesa, e ali na mesa havia porcelana do branco
mais branco. Numa travessa, um ganso, que acabava de ser preparado. E,
exatamente quando ela esticou a mão para alcançar o banquete, a miragem
desapareceu.
Ela estava novamente na neve, mas agora seus joelhos e quadris não doíam
mais. Agora o frio abria caminho pelo seu torso e pêlos braços com formigamentos e
ardências, e por isso ela acendeu o terceiro fósforo.
E na chama do terceiro fósforo havia uma linda árvore de Natal, com uma
belíssima decoração de velas brancas, babados de renda e maravilhosos enfeites de
vidro, além de milhares e milhares de pequenos pontos de luz que ela não conseguia
discernir direito.
Ela olhou para o alto dessa árvore enorme que crescia cada vez mais e
avançava cada vez mais na direção do teto até que se transformou nas estrelas do céu
lá em cima. Uma estrela atravessou brilhante o céu, e ela se lembrou de suai mãe lhe
ter dito que, quando morre uma alma, uma estrelai cai.
E do nada surgiu sua avó, tão carinhosa e delicada, e ai menina se sentiu feliz
ao vê-la. A avó levantou o avental, envolveu nele a criança, abraçou-a bem apertado, e
a menina sei sentiu contente.
Mas a avó também começou a desaparecer. A menina acendia cada vez mais
fósforos para manter a avó consigo... cada vez mais fósforos para mantê-la consigo...
cada vez mais... e elas começaram a subir juntas para o céu, onde não havia nem frio,
nem fome, nem dor. E pela manhã, entre as casas, encontraram a menina imóvel e
morta.

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Afugentando a fantasia criativa

Essa criança está num ambiente em que as pessoas não se importam com ela.
Se você está num ambiente desses, saia daí. Essa criança está num meio no qual o que
ela tem, foguinhos em palitos — o início de toda possibilidade criativa — não é
valorizado. Se você estiver numa aflição semelhante, vire as costas e vá embora. Essa
criança está numa situação psíquica na qual há poucas opções. Ela se resignou ao seu
"lugar" na vida. Se isso aconteceu com você, pare de se resignar e saia.
O que a menina dos fósforos deve fazer? Se os seus instintos estivessem
intactos, suas opções seriam inúmeras. Caminhe até uma outra cidade, esconda-se
numa carroça, abrigue-se num depósito de carvão. A Mulher Selvagem saberia o que
fazer em seguida, mas a menina dos fósforos não conhece mais a Mulher Selvagem. A
pequena criança selvagem está morrendo de frio; tudo o que resta dela é uma pessoa
que se movimenta como se em transe.
Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa
criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos
congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto
exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se
necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que
precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer
que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de
elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias
em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres
dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias.
Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se
sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o
que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para
perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que
você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu
tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da
menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma; fração de vida que mata pelo frio
todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história,
porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor.
Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e
impede seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta
o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o
primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as
pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver.
Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que
poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a
menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a
fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à
fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a
formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de
planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos —
psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa
natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de
fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.
Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia
que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que
não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia
vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa
garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um
alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis,
mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas
de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.
Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa
criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos
congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto
exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se
necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que
precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer
que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de
elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias
em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres
dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias.
Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se
sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o
que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para
perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que
você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu
tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da
menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma; fração de vida que mata pelo frio
todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história,
porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor.
Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e
impede seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta
o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o
primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as
pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver.
Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que
poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a
menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a
fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à
fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a
formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de
planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos —
psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa
natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de
fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.
Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia
que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que
não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia
vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa
garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um
alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis,
mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas
de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.
E o que poderá reverter essa situação e restEstar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa
criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos
congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto
exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se
necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que
precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer
que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de
elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias
em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres
dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias.
Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se
sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o
que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para
perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que
você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu
tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da
menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma; fração de vida que mata pelo frio
todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história,
porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor.
Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e
impede seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta
o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o
primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as
pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver.
Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que
poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a
menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a
fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à
fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a
formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de
planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos —
psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa
natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de
fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.
Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia
que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que
não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia
vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa
garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um
alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis,
mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas
de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.
Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa
criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos
congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto
exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se
necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que
precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer
que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de
elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias
em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres
dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias.
Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se
sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o
que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para
perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que
você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu
tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da
menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma; fração de vida que mata pelo frio
todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história,
porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor.
Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e
impede seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta
o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o
primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as
pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver.
Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que
poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a
menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a
fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à
fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a
formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de
planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos —
psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa
natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de
fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.
Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia
que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que
não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia
vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa
garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um
alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis,
mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas
de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.
Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa
criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos
congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto
exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se
necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que
precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer
que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de
elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias
em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres
dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias.
Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se
sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o
que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para
perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que
você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu
tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da
menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma; fração de vida que mata pelo frio
todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história,
porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor.
Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e
impede seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta
o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o
primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as
pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver.
Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que
poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a
menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a
fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à
fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a
formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de
planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos —
psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa
natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de
fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.
Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia
que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que
não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia
vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa
garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um
alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis,
mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas
de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.
Continua...
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Parte do livro Mulheres que correm com os lobos.

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