29 setembro 2014

Poesia - Barba Azul (por Mariza Ruiz)


Chegou-te
o homem
de barbas
azuladas
com melífluas

palavras
seu coche
enfeitado.
Veio de tão longe.
Veio de estocada.
Ofereceu-te tanto,
nem desconfiaste!
Chegou-te o homem
de olhos negros,
e te fitou intenso,
capturou-te o ventre,
escureceu tua alma.
Veio sem aviso,
veio de repente.
Chegou-te o homem
com quem jamais
sonharas,
escondido jazia,
onde não pensaras.
Veio tão pujante.
Veio tão potente,
esmiuçou teu corpo,
amoleceu-te a alma.
Chegou-te o homem
e te deu mil chaves,
todas do castelo,
onde te mantinha,
silenciosa e calma.
Podias, disse ele,
abri-las pouco a pouco,
olhá-las com afinco,
gozar de seus tesouros.
Apenas proibida,
uma chave pequenina,
jamais poderia
ser desvirginada
a fechadura.
Abriste os aposentos,
abriste quarto a quarto
e viste o que querias,
e muito aproveitaste.
Pequena chave
queimava-te
por dentro,
que terrível segredo
a pequenina porta
encerrava?
Por que não desvirginá-la?
E fostes devagar,
foste amedrontada,
foste com cuidado,
abriste o pequenino
quarto.
Com o terror
te deparaste,
cabeças de mulheres
decepadas por toda
parte.
Trancaste a porta
tão pequena
e contemplaste
a chave:
chorava sangue
e não estancava
as lágrimas.
Tu te apavoraste:
o que dizer ao homem
quando voltasse?
A chave só chorava,
emoções tão guardadas,
e a alma pouco a pouco,
perdia as amarras.
Teus aliados internos
convocavas.
Tuas forças mais profundas
se aprumavam.
Quando mais sangue chorado
mais crescias,
mais te preparavas.
Chegou-te o homem
e não lhe tinhas medo
embora soubesses:
perigo representava
A ele todas as chaves
devolveste
menos a do quarto
terrível onde
as emoções
ficaram por tanto
tempo guardadas.
O homem enfureceu-se
disse: vou matar-te.
Pediste apenas tempo,
de novo as forças
internas convocaste:
teu animus saudável,
tua anima aliada
e, então te apresentaste.
Chego-te agora, homem
e não podes fazer-me nada.
sacas-te tua espada
e olhando-o bem nos olhos
tu o decepaste.


MARIZA RUIZ

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